quarta-feira, 16 de junho de 2010

O Jardim Zoológico

Ir ao Jardim Zoológico era uma festa! Passávamos tardes inteiras felizes e "pelávamo-nos" para por uma moeda de cinco tostões na tromba do velho elefante para o ver tocar o sino!

Os "miúdos"

Os "miúdos" como nos chamavam, no Jardim da Estrela em Setembro de 54. O primo Toninho (entre as manas), o António e o Bébé. O Toninho é filho único da tia Luísa e do tio Túlio.
Foi, en criança, ultra protegido pelos pais, avó e pelas "criadas", o que não o ajudou, infelizmente, para enfrentar a vida...
Quando íamos brincar, as recomendações que levava eram sempre as mesmas: tem cuidado, não te magoes, Vê là, não partas os oculos!  O Toninho voltava para casa a choramingar "porque os primos são maus comigo, não querem que eu brinque com eles..." e outras queixinhas do mesmo género. O Toninho, às vezes, tinha razão...

domingo, 13 de junho de 2010

Recordações de família

Esta fotografía data de Setembro de 1954, dias depois da nossa chegada de Macau.
Da esquerda para a direita: avó Emília, tio Virgilio, tia Mariana, Odete com Carlos Jorge (com 11 meses) e o marido, o primo Mário Oneto Nunes, a prima Maria do Carmo (e minha madrinha) com o meu irmão Bébé (Joaquim Humberto) ao colo. Na primeira fila: o primo Toninho Braz, eu, a minha irmã Isabel e o meu irmão António. Falta o meu irmão Luis, que tinha na altura 15 meses, para completar a fratria.

Penso ter sido esta a primeira vez que vi os tios Virgílio e Mariana, pais da prima Maria do Carmo, e os primos Oneto Nunes. As recordações que tenho da familia de Lisboa só começam quando regressámos definitivamente de Macau em 1958.

sábado, 12 de junho de 2010

O primo Francisco

Berta Oneto, irmã mais nova do meu avô António e da minha tia Mariana, nasceu por volta de 1900, casou com Agapito Gomes Nunes de quem teve dois filhos, João Miguel e Mário, faleceu com vinte e poucos anos.  A tia Berta era filha de Miguel Luís Oneto e de Engrácia de Mello avós do meu pai e tios Luísa e Fernando, da prima Maria do Carmo e dos primos João Miguel e Francisco Oneto Nunes. 

A 7 de Junho do ano passado, dias antes de um almoço de familia ao qual, infelizmente, não pude ir, o primo Francisco escreveu-me:

"(...). Eu também me confesso bastante entusiasmado, pois a história deste encontro é, em si mesma, um esplêndido exemplo do imprevisto que sempre pontua a nossa existência e nos torna abertos ao devir do mundo e aos outros. Infelizmente, não sei tanto quanto desejaria acerca dos nossos antepassados oitocentistas, mas há pistas interessantes para serem seguidas. Estou inteiramente de acordo consigo quanto à importância do almoço gentilmente organizado pela Prima Maria Helena, de cuja avó – a Tia Mariana – me recordo de visitar a casa do meu avô e dos meus pais, na Avª João Crisóstomo (e como mudaram as Avenidas Novas desde a minha infância…). Mas mais interessante do que a mera ressonância das minhas memórias, é a possibilidade de sondar a memória das primas de idade mais avançada. Lamentavelmente, muitos cujo nome me era muito familiar já partiram, como o seu pai, Joaquim Humberto. Ele ia mantendo contactos regulares com o meu tio João Miguel, e este servia de Hermes, mensageiro… e ia contando lá em casa as notícias da família, falando de pessoas que eu não conhecia, mas com quem sabia ter laços de consanguinidade… E também ele partiu. [....). O meu pai, que perdi há cinco anos, também falava bastante do seu primo Joaquim Humberto e do pai deste, o “Tio António”. Mas aqui, infelizmente, a minha memória pouquíssima coisa conservou. Mas é bom imaginar que pela memória dos vivos nos poderá chegar ainda uma ténue corrente de imagens e histórias interessantes acerca do nosso trisavô e dos seus cinco filhos… Ou, pelo menos, da minha avó Berta Oneto, uma mulher tão jovem e bela ceifada pela tuberculose, deixando dois filhos ainda bebés – o meu pai, o mais novo, com apenas dois anos…

Também me sinto muito feliz por saber que a inquirição das origens é uma aventura partilhada por vários ramos da árvore dos Onetos.

Ah!... Então gostou do anjo do mausoléu Oneto? Eu achei-o fabuloso, na sua graciosa beleza andrógina… e algo na figura ecoou uma ressonância da Irmandade Pré- Rafaelita… Mas qual a relação dos Onetos sepultados neste cemitério monumental de Staglieno, com os demais? A pesquisa complica-se um pouco quando se descobre na net que os registos de entrada de emigrantes italianos feitos logo ali na baía do Rio Hudson, na Ilha de Ellis, registam a chegada de cerca de 300 Onetos entre 1880 e 1920. Alguns vêm de outras regiões distantes de Itália, mas há vários de Chiavari – a terra de origem do nosso Trisavô António Oneto – e de outra(s) localidade(s) dos arredores de Génova.

Mas muitos anos antes, em 1705, casava no México Joseph Oneto com Andrea Maria de Monteverde. E há vários Onetos no Brasil, na Argentina… Enfim…
Francisco Oneto Nunes"

Antepassado(s)


"Que antepassado fala em mim?
Eu não posso viver simultaneamente na minha cabeça e no meu corpo
Por isso não consigo ser uma única pessoa
Sou capaz de me sentir uma infinidade de coisas ao mesmo tempo
O verdadeiro mal do nosso tempo é já não haver grandes mestres
A estrada do nosso coração está coberta de sombras
É preciso escutar as vozes que parecem inúteis
É preciso deixar entrar o zumbido dos insectos nos cérebros ocupados com os longos tubos dos esgotos, com os muros das escolas, com o asfalto e com as práticas assistenciais
É preciso que os ouvidos e os olhos de todos se encham com coisas que sejam o princípio de um grande sonho
É preciso que alguém grite que haveremos de construir as pirâmides
Não importa que depois não as construamos
É preciso alimentar o desejo
Deveríamos lançar a alma por toda a parte, como se fosse um lençol estendido até ao infinito
Se queremos que o mundo vá para a frente é preciso estarmos disponíveis
Misturemo-nos, os considerados sãos e os considerados doentes
Eh, vocês os sãos, o que significa a vossa sanidade?
Os olhos de toda a humanidade contemplam o abismo para o qual nos precipitamos
De nada serve a liberdade se não tiverdes coragem de nos olhar o rosto, de comer connosco, de beber connosco, de dormir connosco
Foram os que se dizem sãos que levaram o mundo à beira da catástrofe…"
EXCERTO DE "NOSTALGHIA" DE ANDREI TARKOVSKI

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Muitos Parabéns

 Á tia Luísa (aqui com 13 anos em 1938)

e ao meu irmão Luís (aqui com 21 anos em 1974)
que festejaram, ontem, mais uma primavera!

Lisboa

Adoro a luminosidade de Lisboa ao nascer e pôr do sol. Adoro ouvir as gaivotas à volta dos cacilheiros em dias de nevoeiro. Gosto sempre de chegar e custa-me sempre deixar a cidade onde nasci.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Chegar a Lisboa

Entrar em Lisboa, por mar, em Setembro, é sempre um espectáculo! Imagino a alegria de todos à nossa chegada ao cais da Rocha onde a família nos esperava.

domingo, 6 de junho de 2010

O "Timor"



Fotografia de Viana do Couto
Em Agosto de 1954, o estado de saúde da mãe obrigou-nos a voltar para Lisboa. Fizemos a viagem no Timor com o meu pai. A mãe e o meu irmão Luís tinham ido mais cedo de avião. O pai contava que se viu aflito para "dar conta" de nós durante os quase 45 dias que durava a travessia marítima até Lisboa.
  
As manas e o António (com cara de mau) no Timor.
Recordo-me pouco desta viagem mas tenho uma ideia vaga da escala em Mormugão e em Port Said onde o pai comprou, além de quatro pares de sandálias, duas magníficas malas em pele de camelo.

A duas senhoras macaenses, de que não me lembro o nome, ajudaram muito o meu pai durante a viagem e nas escalas (aqui em Mormugão).

domingo, 30 de maio de 2010

As gentes de Macau

Nasciam, viviam e morriam suspensos no Rio das Pérolas.

Sampans

Silenciosos, deslizam num mar de prata cheio de vida.

Macau ao fim do dia

"[...] Daquela região do globo ficaram-me várias memórias. Das gentes, do pôr do sol, que, não sei porquê, sempre achei especial, misterioso, balsâmico..." de P. Rufino

sábado, 29 de maio de 2010

Dennis Hopper - born to be wild


Dennis Hopper, o genial actor e realizador de Easy Rider e de tantos outros fimes "culte" partiu definitivamente. E com ele um pouco de mim.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Asneiras


O nosso passa-tempo favorito era ir à caça de cobras ou brincar com panchões. Fugimos sempre a tempo da vingança das serpentes, mas raramente das sovas monumentais que apanhávamos quando chegavam aos ouvidos dos meus pais os relatos das nossas aventuras pirotécnicas.

"Chiner"


O passa-tempo favorito dos meus pais era "chiner" nos antiquários de Macau e de Hong-Kong.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Panchões

A maior fábrica de panchões de Macau ficava na Ilha da Taipa. Centenas de homens, mulheres e crianças trabalhavam na indústria de panchões. De vez em quando, um (ou mais que um) paiol explodia. O estrondo era medonho e quase sempre havia mortos e feridos. Uma das maiores explosões, de que me lembro, ocorreu a 25 de Setembro de 1954 e provocou oito mortos entre os quais duas crianças e dezenas de feridos.

Perto da nossa casa, no largo da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, era frequente ver-se um estendal de panchões a secar. Era aí que nos abastecíamos.


10 de Junho de 1957 (2)

Depois das celebrações oficiais, festival de chapéus para o banquete

10 de Junho de 1957

Para as comemorações do dia de Camões, a minha mãe foi convidada para fazer o discurso da praxe. Encontrei há tempos o rascunho do texto que ela preparou para a ocasião.

"Excelentíssimo Senhor Governador de Macau,
digníssimas autoridades,
minhas senhoras, meus senhores,
queridos alunos,
Vieram hoje aqui, a esta gruta, para ouvirem contar una história. Não é de fadas nem de príncipes encantados; é sim um príncipe, o Príncipe dos Poetas Portuguêses que contou nos Lusíadas os feitos sublimes e imorredouros dos que honraram a Raça Portuguêsa, "aqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando" [...]
Presidiu a cerimónia Joaquim Marques Esparteiro, Oficial da Marinha,  foi Governador de Macau de 1951 a 1957.

as digníssimas autoridades

domingo, 25 de abril de 2010

25 de Abril de 1974 - 36 anos depois

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as máguas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

[...] Sonetos de Luis de Camões

Liberdade

 "Meu povo, liberta-te, liberta-te! liberta-te, meu povo! ou morre."
Joaquim Namorado

cravos de Abril

25 de Abril


MFA


sábado, 24 de abril de 2010

"Vésperas de Abril" de Francisco Seixas da Costa, Embaixador de Portugal em França


"Vésperas de Abril

Com o ar sereno que projectava confiança, a que a calvície precoce também ajudava, o António juntou-se à mesa do Montecarlo onde, sem arranjos prévios, nos íamos encontrando em algumas noites desses últimos meses de 1973. Forte da sua aura de resistente, que sabíamos ligado ao “Partido” ainda antes das lutas de 69 em Coimbra, com contactos cuja solidez nos não passava pela cabeça pôr em causa, lançou em tom algo displicente, seguro de antecipar a nossa ignorância: “Então, já há mais novidades de Castelo Branco?”.

Porque outra coisa não seria presumível na sua boca, habitualmente dada ao sério reportar de eventos heróicos das “massas”, logo nos cheirou a bernarda política sobre a qual, porém, a nossa troca de olhares rapidamente traiu uma amesquinhante comunhão no desconhecimento. Explorando o embaraço colectivo, o António, sem largar o tom algo sobranceiro de quem “bebe do fino”, mas já aberto a alguma generosidade informativa, lá esclareceu: “Então vocês não sabem do levantamento de rancho e da saída das tropas para a rua?”.

Ninguém sabia de nada, ninguém tinha ouvido falar de qualquer movimentação de tropas, parte substancial da mesa acordara nesse segundo para a própria existência de um regimento em Castelo Branco.

Registe-se, para a História, que era tudo mentira, que nem uma palha mexera na tropa das Beiras, que o boato surgira, como habitualmente, da magnificação de uma qualquer rixa menor, lida à luz da matriz de esperança que à época pintava qualquer buliço castrense, com que a rapaziada à roda do PCP ia alimentando a perpétua madrugada dos amanhãs que por cá tardavam em cantar.

Era assim o Portugal de então, para quantos dentre nós, na casa dos 20 e dos 30, nos entretínhamos, na cavaqueira após o jantar, a cultivar pequenas historietas com ressonância política, enquadrando-as nessa manta de retalhos informativos que individualmente coleccionávamos e que nos dava a ilusão de estarmos a acompanhar o curso das coisas, de percebermos o fio condutor do que politicamente se passava à nossa volta.

(Previno, desde já, o leitor que não encontrará, no que se vai seguir, veleidades de generalização sociológica e que assumo, sem hesitações, o carácter subjectivo da minha própria experiência pessoal e o datado simplismo da perspectiva que deixo registada. Mas arrisco poder representar, em muita dessa vivência e desse mesmo olhar, um ambiente que combinou o tempo estudantil de alguns, a diversa vida já profissional de uns quantos e o percurso jornalístico-intelectual de outros escassos eleitos que quase todos invejávamos.)

Juntos construíamos, no cultivo do debate de âmbito quase renascentista e da troca do “gossip” político-cultural, nessa Lisboa de pouco antes de Abril, um terreno de convivialidade dispersa que marcou alguma da nossa geração.

A Lisboa dos cafés, onde muitos de nós atenuávamos a solidão de quem caíra na capital um tanto desamparado, era um espaço de absorção, por vezes um tanto impressionista, de uma imensidão de sinais culturais que, ainda que sem grande critério, pressentíamos essenciais à afirmação de uma certa modernidade de pensamento, que nos dava a cómoda sensação de pertença à tribo.

As novidades francesas recolhidas (sabe-se lá como...) das mesas da Livrelco ou da cómoda solidão da Universitária, os suplementos literários dos vespertinos, os ciclos de cinema francês e as sessões de cine-clube do Chile, os cursos político-culturais e os colóquios no “novo” Centro Nacional de Cultura iam de par com debates mais pesados que atravessavam as páginas da “Vértice”, da “Seara”, do “Notícias da Amadora” ou, mesmo, do “Jornal do Fundão”. À época, “O Tempo e o Modo” estava já entregue a um radicalismo sem remissão, o róseo “Comércio do Funchal” deixara de ser novidade e até o “& etc” perdera a sua graça meio anarca.

As raras polémicas na imprensa, quase sempre envolvendo apenas figuras de sensibilidades da esquerda, acabavam por funcionar como mecanismos de substituição do debate democrático que não tínhamos e davam a cada um de nós um gozo proporcional à respectiva capacidade de partilha do código de leitura dos textos que o regime censório deixava passar, pela certeza que tinha da sua inocuidade prática em termos de proselitismo ideológico.

Marcados por uma evolução mais radical, alguns dessa geração assumiam ao tempo uma actividade política mais empenhada, de paralelo ou em substituição da militância associativa universitária. Uma vezes inserindo-se na proliferação esquerdista em crescendo (do maoísmo à LUAR, passando pelo PRP ou por aquilo que viria a ser o MES), as mais das vezes caminhando ao lado de um PCP cujos “revisionismo” e alegada passividade não esmoreciam as convicções de quem continuava a ver no “Partido” o eixo incontornável da vida política da oposição.

Alguns vindos dos áureos tempos do Vává, dos sobressaltos românticos da Suprema ou das noitadas da Alga, muitos de nós empreendêramos entretanto uma transição geográfica em moda, da Grã-fina até ao Montecarlo. Neste coabitavam já mundos muito diversos, da tertúlia neo-realista à marginalidade sexual, do vário jornalismo a um certo “bas-fond”, confinado este à área do dominó protegido pelos bilhares. O Montecarlo era um curioso espaço plural, uma espécie de permanentes “estados gerais” de uma esquerda em definição de projectos que, quando abonada, assomava ao bife nas “toalhas” e, na rotina da crise, se resumia à imperial do fim de tarde ou à bica da noite.

Esse é também o tempo da passagem frequente para “o outro lado da noite”, de que o Bolero e, mais tarde, o Jamaica vão ser exemplos fortes, aliás numa linha de colagem de mundos que várias gerações de Lisboa sempre se entretiveram a cultivar e de que o Maxime e o Ritz Club, e noutras horas o British Bar, serão pilares eternos.

A política era, porém, um cenário de referência comum, se bem que com graus muito diversos de afirmação, de sensibilidade e, em particular, de intervenção. O choque eleitoral de 1969, complementado com as ressacas tardias do Maio do ano anterior, tinha ajudado a adubar o saudável mal-estar que se sabia atravessar estudantes, sindicatos e, ao que se dizia, também militares. Se a revolução não parecia estar ao virar da esquina, o fumo do fim do regime pressentia-se já no horizonte, embora sem saídas naturais muito evidentes.

Marcelo Caetano revelava-se sem garra para recuperar, através de reforma ousada, as brechas psicológicas provocadas na opinião pública pelo cansaço da guerra colonial, pela dessintonia institucional com um mundo exterior que se infiltrava no país por todos os lados, tendo como pano de fundo a crise económica que a situação petrolífera acentuara no edifício do regime. O marcelismo, fórmula recauchutada do salazarismo por via inábil, havia-se refugiado na revisão semântica (DGS, ANP, Exame Prévio) como elemento de auto-convencimento da vontade da mudança, desmentida pelo abandono com estrondo da “ala liberal”, pela forçada inoperância da solução SEDES e pelo enveredar pela reciclagem do pessoal da “situação”. Marcelo simbolizava a modorra do empate político, entre os “ultras” que pareciam tutelar Tomás e o bando disperso de renovadores sem aparente liderança.

O “Expresso” era a face mais visível do descontentamento do pessoal mais liberal - que, há que confessá-lo, muitos de nós olhávamos à época com algum desdém, por identificarmos com um sector da classe política dominante que apenas vivia na não respeitável ânsia de tentar garantir espaço para uma qualquer via reformista que evitasse a ruptura radical. Ainda assim, o jornal era a porta mais aberta ao nosso “voyeurisme” face ao regime, que apreciávamos com algum deleite exterior, porque era muito mais criativo que o discurso ainda um tanto reviralhista do “República” e só acompanhado pela subtileza persistente do “Lisboa”.

Mas a guerra continuava a ser, para muitos dentre nós, o verdadeiro elemento de fronteira que distinguia o que era politicamente correcto (o termo tinha então um significado bem diferente do actual) de tudo quanto se colava ao regime. O estatuto dos “movimentos de libertação” impunha-se então como um dogma sem contestação, erigido mesmo num símbolo de pureza ideológica que utilizávamos para absolver as nossas próprias fraquezas. Estar desse lado, sem condições, impunha-se à esquerda de então como uma evidência, um pouco como o que sucedeu mais tarde a todos nós com a causa timorense.

É claro que nem todos tinham a mesma visão táctica. Em crescendo, os maoístas iam ocupando com eficácia o terreno das escolas, sofrendo, ciclicamente, uma repressão selectiva que potenciava novas ondas de contestação, que o regime se via em palpos de aranha para controlar. Das manifestações-relâmpago à proliferação panfletária, os grupos que se reclamavam de Pequim e Tirana iam tecendo um interessante, embora heterogéneo, movimento de destabilização académica que, como sempre, desagradava profundamente ao PCP, que perdia em terreno o que ganhava em diabolização ideológica.

Para os comunistas “oficiais”, que a polícia continuava a manter como alvo preferido, o período eleitoral de 73 consagrara, porém, o passo unitário prenunciado no Congresso de Aveiro, ao terem conseguido um entendimento com a corrente socialista, o que atenuou os dissídios fratricidas de 69. A isso se cumulava o seu crescente ascendente junto de uma parte do movimento católico, cada vez mais radicalizado desde os acontecimentos da Capela do Rato, parte chegando mesmo a ligar-se a uma deriva bombista, que o próprio PCP se vira forçado a acompanhar por via da ARA.

Algumas faixas do movimento católico democrático mantinham-se, contudo, à distância destas tentações e fixavam o pessoal político que caminhava na órbita declaratória da SEDES, que o 25 de Abril viria a espalhar pelo PS e pelo PPD.

Num registo menos dado a movimentações de massas, os socialistas haviam finalmente concretizado em Bad Godesberg a sua estruturação em partido, sob um programa político algo avançado para a sua base social tradicional. Esta continuava a não ultrapassar as profissões liberais de província e um conjunto de quadros urbanos da pequena e média burguesia, que em Lisboa se sabia agrupados num sector da “Seara”, em cooperativas e em alguns ritos persistentes, para além de cada vez mais dominantes na linha do “República”. Ideologicamente, continuavam federados pela imagem exilada de Mário Soares, recém-prestigiado pela publicação de um “Portugal baillonné” que nos chegara pelas cumplicidades na “Barata”, na “Moraes” ou na “Opinião”.

Neste quadro, onde seguramente falta muita gente, começavam finalmente a aparecer os militares. De início eram apenas uns rumores de descontentamento de carreiras, através de uns textos que relevavam mais do corporativismo que da revolta com possíveis consequências. Sabia-se de Spínola e da sua corte de apaniguados da Guiné, mas temia-se que a distância que o separava de Kaúlza fosse sempre mais curta do que a que ia até à Esquerda. Entre as operações “Mar Verde” e “Nó Górdio” não se via uma diferença que justificasse um mínimo de crédito. Longe pareciam os tempos dos militares políticos da Sé ou de Beja, e só os mais informados conheciam Melo Antunes, embora duvidassem que tivesse condições para levar à prática o seu rigor.

Reconheça-se que a experiência de convivência militar de muitos de nós, muito em especial desde os penosos tempos de Mafra, não aconselhava ao alimentar da esperança numa regeneração das Forças Armadas, que o passado ensinara penderem facilmente para o partido da ordem, temerosas com os descontrolos da rua. Acresce que, com escassas excepções, originadas pela abertura social do recrutamento, os militares de carreira que íamos frequentando, se bem que sensíveis a um certo desinquietar ideológico esquerdizante, nos pareciam ainda muito presos a reflexos de casta. Daí as reticências, e até alguma distância, com que víamos as suas movimentações e as raras virtualidades que lhes atribuíamos.

Felizmente, a realidade tem muito mais imaginação que os homens. Nesses idos de 73 e inícios de 74, a força da movimentação democrática na tropa acabou por nos surpreender a todos, pela inesperada conversão de reivindicações corporativas, de raiz algo discriminatória face aos milicianos, numa consciência de poder potencial que levou à definição de um inesperado programa de democratização, com o fim da guerra como cenário, embora então apenas implícito.

A certa altura, aqueles que, como eu, serviam de militares a prazo, foram obrigados pela força das coisas a ter de levar a sério a “rapaziada do quadro” e a tentar integrar a nova onda política que se começava a formar, quanto mais não fosse para ensaiar participar nalgum controlo do sentido do seu rebentamento.

As informações que nos iam chegando começaram a prenunciar coisa séria e forçaram-nos mesmo a gizar um entendimento exterior, por sobre as nossas próprias divisões políticas. Recordo duas tumultuosas reuniões de milicianos - uma delas em Campolide, outra perto da Almirante Reis - onde, num granel organizativo e informativo que roçava a irresponsabilidade em termos de segurança, verificámos o muito que estava a mexer no “quadro permanente” e que as coisas tinham já uma dimensão que seria suicídio não procurar explorar.

Verdade seja que, para muitos, não era claro se a ruptura pressentida iria, de facto, desembocar numa linha afirmadamente democrática (e muito socializante, como alguns então pretendíamos) ou se, ao invés, não estaríamos a dar vento e a ser inocentes úteis para uma qualquer “quartelada” da qual nos acabasse por sair um Kaúlza ou figura de idêntico jaez. Mas a parada valia o risco.

Seguem-se a edição do “Portugal e o Futuro”, a cena da “brigada do reumático” e as demissões de Spínola e Costa Gomes. Não havia ilusões de que o Portugal que emanava do livro de Spínola era uma espécie de gaullismo requentado, sem óbvio futuro mas com a simpática virtualidade de dividir as hostes e trazer para o campo contra o regime sectores a que a Esquerda tradicional não chegaria nunca. A aventura das Caldas não nos sossegou quanto ao que resultaria de um golpe militar, mas deixou-nos mais optimistas face ao estado de alma dos que discretamente se mobilizaram então para o apoiar.

Nas noites inquietas que se seguiram, cruzámos boatos e revimos sinais, para tentar perceber em que sentido o que estava prestes a acontecer encaminharia o futuro de todos. Ninguém tinha uma percepção total das coisas, mas a progressiva junção de dados começava a tornar o “puzzle” mais coerente e com perspectivas de resolução.

Estou a ver o sorriso nervoso e o tom de gravidade histórica com que o António Reis nos disse, na biblioteca do quartel da EPAM, ao fim da manhã de 24 de Abril : “É hoje à noite!”. Quando saiu, os três ou quatro que partilharam o segredo entraram num minuto estranho de silêncio, na consciência do peso insuportável da informação recebida. Todos sentimos que o dia seguinte - a que ninguém se lembrou então de chamar “25 de Abril” - seria o princípio de uma história diferente para todos nós, acontecesse o que acontecesse.

O resto é conhecido. Não me consta que o outro António, de que lhes falei no início do texto - e que por aí anda -, haja aparecido nessa noite no Montecarlo a anunciar o arranque do Maia da parada de Santarém ou os golpes de mão à RTP e ao Rádio Clube, para daí a pouco. E ninguém lhe terá dito que, a essa mesma hora, Castelo Branco estava - agora sim!- a sair para a rua, rumo à vitória por que lutara.

O Montecarlo é hoje uma loja espanhola, mas os espaços de liberdade que se abriram nessa noite valem bem todos os cafés do mundo que perdemos."

de Francisco Seixas da Costa, domingo, 25 de Abril de 2004 in http://ou-quatro-coisas.blogspot.com/

Foram dias foram anos a esperar por um só dia...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Club Militar de Macau

Era no Club Militar que se reuniam os oficiais em comissão de serviço, funcionarios publicos, expatriados e macaenses,  médicos e padres. Não era raro ver, também, um ou outro "aventureiro" em escala mais ou menos prolongada em Macau.

Ali se faziam grandes festas, jantares, casamentos, chás (para as esposas), batizados, comunhões, enfim, tudo o que se pudesse festejar ou comemorar era no Club Militar. O dress code  era de rigor para jantares de gala e bailes. Lembro-me do meu pai de smoking e da minha mãe de vestido comprido dançarem o "In The Mood" de Glenn Miller. Foi lá que me apaixonei loucamente por Pat Boone e Elvis Presley