Homenagem a Fernando Oneto (1929-1976)
Em homenagem ao meu tio Fernando que morreu no dia 14 de maio de 1976, publico esta série de entrevistas que ele deu ao "Diário de Noticias":
recolhidas
por Martinho Simões e publicadas no «Diário de Notícias»
em Fevereiro e Março de
1975
I – De filho-família a activista político
Em Junho do ano passado, quando
houve uma revolta na cadeia de Monsanto, a reportagem do «Diário de Notícias»
teve ocasião de verificar as «condições degradantes
em que, por anos e anos, viveram centenas de homens»
como foi referido nas colunas do jornal, levantando-se o problema de saber que
providências seriam tomadas para que no futuro, em situações semelhantes, os
presos não sofressem o que uns sofreram e não caíssem no que outros caíram.
Os reclusos de Monsanto fizeram
na mesma altura acusações tão graves que tornavam indispensáveis averiguações,
em termos de apurar culpas e castigar os responsáveis.
Como primeiro passo dessa
diligencias foi reaberta a «cisterna» que existe naquele estabelecimento
prisional. Dizia-se que nas suas galerias estavam sepultados corpos de presos
mortos à míngua dos mais elementares meios de sobrevivência. Daí, a publicação
em 13 de Novembro, de segunda reportagem, em que se dava conta de que na
verdade não havia sepulturas na «cisterna». Para o jornalista nem todas as
repostas estavam dadas: “O chefe dos guardas, recentemente reformado, foi
responsável -como se declarou- pelos inumanos castigos dos últimos presos que
conheceram a «cisterna»? Praticaram-se irregularidades de ordem administrativa
-como se declarou- que prejudicaram de forma extremamente grave o bem-estar e
saúde dos presos? Em caso afirmativo, quem cometeu faltas? Quando? De que modo?
Até que ponto?”
Estará em causa todo o sistema
prisional português? No que ele foi, no que ele é, no que ele pode vir a
transformar-se. Perguntas a suscitarem perguntas, às vezes aparentemente fora
do âmbito da questão inicial. Mas na realidade sempre na mesma linha de
pensamento porque sempre inseridas no contexto da vida nos últimos 50 anos do
nosso país. As prisões antes do 25 de Abril contam por si só a história de um
regime. Muitos que lutaram contra ele lá estiveram. Abriram-se ao jornalista as
perspetivas de um quadro que lhes pareceu útil levar ao conhecimento do público
através de depoimentos das mais diversas personalidades. Um quadro de cores
sombrias, como o são as paredes das prisões. Aqui e ali, no entanto, a deixar
adivinhar a alegria da esperança e da vitória.
O desfilar das recordações não
leva a esquecer o presente nem diminui as preocupações do futuro. Prisões em
tema principal com porquês, factos e consequências. Presos políticos e de
delito comum.
Para
que se saiba.
O depoimento é o de Fernando
Oneto, um homem complexo, que adora a vida e os seus prazeres, mas que
sacrifica alegremente comodidades e vantagens para defender um ideal.
Torturado, não guardou rancor aos algozes. Apreciador da boa mesa, epicurista,
fez a greve da fome e passou meses nos «curros» do
Aljube. Sem ceder. Espantosamente rindo-se das perseguições, dos vexames, de
cobardes agressões. Com uma coragem tranquila, deu ânimo a muitos outros.
- ...Sou originário de uma
família da média burguesia lisboeta, naturalmente conservadora, em que o
problema político era aflorado em temos perfeitamente convencionais.
Lembro-me, por exemplo, quando
acabou a guerra de Espanha, em minha casa (morava nessa altura num velho
palacete da Lapa), foram hasteadas, lado a lado, as bandeiras espanhola e
portuguesa.
Confessava-me nos Jesuítas.
Estava encarreirado para tudo menos para o que iria acontecer.
O meu irmão mais velho foi para o
Colégio de Santo Tirso (e o meu pai exigiu que lhe dessem o número 290, o seu,
muitos anos antes, nos Jesuítas de São Fiel). Repito, uma família burguesa
tradicionalista, conservadora. Digo com frequência que se alguma coisa fiz na
vida não foi a minha família que ajudou.
O meu irmão estudava violino
porque o padrinho era violinista; a minha irmã dedicava-se ao piano porque era
suposto que as raparigas o deviam fazer. Nenhum tinha o mínimo ouvido para a
música, nunca vi negações maiores... A mim, que sou capaz de assobiar, de
ouvido, a parte de piano do “Concerto n°2” de Rachmaninoff, não me ensinaram
nada.
Fisicamente era de uma debilidade
total. Tivera gânglios nos pulmões e por isso os meus pais vigiavam-me com
cuidados permanentes. Era o “menino”. Essa minha falta de saúde originou
pequenos-grandes vexames, o maior dos quais sucedeu no dia em que entrei no
Liceu Pedro Nunes com uma criada atrás que me levava a pasta. Fizeram-me uma
surrada mostra de mistura com uns “caldos”. Como era fraquinho, o meu pai
pediu para eu ser dispensado de ginástica. Isso marcou-me terrivelmente; os
meus colegas a executarem os exercícios e eu sentado num banco a ver. Depois,
tendo o meu pai adoecido gravemente, aquele centralismo paternalista perdeu
força. E eu que aos dez, onze anos, fora para o liceu acompanhado da criada que
me levava a pasta e fora dispensado de ginástica, no quarto ano era o
ponta-direita da equipa de futebol do Pedro Nunes. No quinto, estava como
profissional no Estoril Praia, onde ganhei o meu primeiro ordenado, seiscentos
escudos mensais, a jogar futebol. Chegava a casa às seis da manhã. Quer dizer,
começava a ser um galdério de todo o tamanho.
O meu pai morreu quando eu tinha
17 para 18 anos, o que também influiu no nosso estilo de vida. Não éramos
ricos, mas ele pudera proporcionar-nos um desafogo material bastante bom. A sua
morte trouxe dificuldades financeiras à família.
Por outro lado, a disciplina da
casa baseava-se no autoritarismo que ele impunha. Desapareceu o chefe, o clã
desagregou-se. Entrei abertamente no sistema que já vinha praticando:
Jardim-Cinema, “bonecos”, miúdas. Em suma, a carreira clássica de um desocupado
com menos de vinte anos. Deixei de jogar futebol. O treinador Biri
convocava-nos para as 8 da manhã e eu faltava porque a essa hora estava eu a
deitar-me. Até que fui posto perante um problema em que nunca tinha pensado, a
tropa. Meu irmão, que já era militar, chamou-me a atenção para a circunstância
de ser preferível frequentar o curso de oficiais milicianos entre outras razões
por que ganhava mais. “Ganhar mais” dizia-me qualquer coisa. Pedi dinheiro á
minha mãe e fui estudar. Num ano, fiz a cadeira que me faltava do sexto, fiz o
sétimo e a admissão á faculdade (que frequentei vagamente só por causa da
matrícula) e fui apanhado pela tropa.
Começa aqui, de facto, o meu
esquema de vida nocturna em Lisboa, com “boîtes”, cabarets, jogo, festas,
mulheres - o roteiro normal de uma certa classe de meninos daquele tempo. Antes
da tropa, durante a tropa e depois da tropa. Estava em Infantaria 1 quando se
deu o caso da Índia, com a invasão de Dadra e Nagar Aveli. O comandante
ofereceu o Regimento e eu considerava-me o último dos homens se não fosse um
dos voluntários a marchar.
A Índia portuguesa exemplo de
opressão
Isso
determinou a minha vida, cuja experiência mais importante se passou naquele
país. Fui, com um mínimo de preparação, cair numa situação colonial de que nem
sequer fazia ideia. Pela primeira vez tive a sensação do que é um povo oprimido
e do que é um povo opressor e tive-a da maneira mais cruel ao ver o pavor que a
tropa causava aos goeses e, principalmente, às goesas.
Tinha já uma grande bagagem de
leitura proporcionada por uma tertúlia que se reunia numa pequena leitaria
defronte do Jardim-Cinema. Rapazes mais ou menos ligados ao Pedro Nunes que
andavam nas Faculdades e debatiam problemas, trocavam livros e conversavam. Adquiríamos
assim uma preparação política teórica com alguma importância. Mas foi a Índia
que me chamou a atenção para coisas muito decisivas no meu futuro. Vivi lá dois
anos e meio que constituíram efectivamente o início da minha consciencialização
política.
Eu sabia das desigualdades, das
pressões, das prepotências que existiam em Portugal, mas não as sentia de
facto. Na Índia vi, pela primeira vez, povos a oprimirem outros povos. Gente
oprimida por outra gente. A sociedade na Índia estava estratificada por classes
em que uns eram escravos de outros. Sobre isso, o paternalismo português a
proteger os mais fortes contra os mais fracos. Raras vezes terá havido no mundo
maiores diferenças entre ricos e pobres como acontecia na Índia. Isso chocou-me
profundamente.
Voltei da Índia, fui
desmobilizado e pôs-se-me a necessidade de trabalhar. Para voltar a estudar já
era tarde, tinha 27 anos. Comecei a trabalhar em finais de 1957.
Em 1958 o caso Delgado. Tudo
quanto eu sentia contra uma situação insustentável de opressão, de tirania, de
descontentamento via, digamos, canalizada na candidatura do general Humberto
Delgado.
Nessa candidatura, entrei só e
pelo meu pé. Assisti por coincidência á chegada de Humberto Delgado ao Porto
quando a polícia carregou e disparou sobre a multidão; um agente vinha a correr
desalmadamente para agredir as pessoas e tive a suprema alegria de lhe passar
uma rasteira que o enfiou direitinho no buraco de umas obras nos Restauradores.
Senti a alegria do escuteiro que faz a boa acção do dia. Procurei logo de
seguida um senhor chamado Carlos de Jesus Vilhena que é uma figura deste país:
86 anos, 23 prisões e deportações. Sem ele, o 28 de maio talvez tivesse
fracassado. (A propósito: de que se está á espera para dar a este homem o
regozijo de o promover ao posto a que tem, gritantemente, direito?
11/02/1975
II - O capitão Vilhena paladino da Justiça e do
Povo
- Vá
ouvir o capitão Vilhena” - disse-nos Fernando Oneto.
Efectivamente, um livro de muitas
páginas não daria para contar a história do capitão Vilhena que, há 86 anos,
exactamente em 19 de Agosto de 1888, nasceu na Freguesia da Abela, concelho de
Santiago de Cacém. Tudo parecia fadá-lo para uma vida sem cuidados. Filho de
gente abastada, iniciou os estudos como aluno interno de um colégio caro, em
Vila Nova de Gaia na serra do Pilar. Duas expulsões, motivadas pela sua
rebeldia perante actos injustos, levaram-no para o liceu de Setúbal. Em 1907,
comovido pelas lágrimas da mãe de um companheiro mobilizado para África,
ofereceu-se para ir no lugar dele para Angola, na guerra da ocupação, em
condições duríssimas e guarnições reduzidas em territórios onde ainda se
praticava o canibalismo.
...Como
não tínhamos homens suficientes, o mesmo soldado dava o grito de alerta e
corria ao posto seguinte, a responder «Alerta está» para fingir que havia
várias sentinelas.... Voltou a Lisboa em 1910, apaixonado pelas misteriosas
terras africanas, mas principalmente impressionado pelo drama que era a vida
nessas regiões, isolados, sem transportes, sem notícias, sofrendo o clima e a
hostilidade de povos que nunca tinham visto um branco.
- Não havia heróis. O facto de lá estar já era
heroicidade”. Abalado com as riquezas desperdiçadas: “Os inimigos molhavam as
setas num lago e pegavam-lhes fogo antes de as lançarem contra nós. A água
estava impregnada de petróleo.
O
regresso de um homem feito, calejado pelos trilhos do mato e pela “fala” das
árvores. O 5 de Outubro envolveu-o na política. O Partido Trabalhista atraí-o.
Carlos Selvagem, o Dr. Lino Gameiro e outros estabeleciam, como primeiro ponto
de seu programa, a questão do Ultramar.
Numa
carroça transportou armas para a Rotunda. Serviu de elemento de ligação. Foi
até Alcântara. A revolução triunfara implantando a República. Não quis honras
nem proveitos nem nunca os aceitou depois.
Em
1914 seguiu para Moçambique. Um soldado negro que desertara e fora capturado,
levantando a camisa e apontando o estômago: “Zala”! (fome). O capitão Vilhena
fez com que o tribunal o absolvesse.
Voluntário
para França em 1916, impediu uma revolta no quartel da Figueira da Foz, cujos
militares não queriam partir. Norton de Matos escreveu-lhe, felicitando-o pela
acção.
Passada
a guerra, passou 4 anos em Moçambique.
1922:
em Lisboa outra vez. A capital refletia uma situação política instável,
tornando urgente reforçar e prestigiar a jovem República. Sucessivas intentonas
monárquicas tinham-se gorado, mesmo aquela que foi chefiada por Paiva Couceiro,
militar brilhantíssimo. A Maçonaria e a Carbonária desempenhavam os seus
papeis.
O
País inquietava-se. No Parlamento, Cunha Real lançava terríveis acusações
contra o Governo. Os Democráticos, em maioria, perdiam terreno divididos e
desorientados.
Abria-se caminho ao 28 de Maio, do qual o capitão
Vilhena foi figura relevante, como um dos cinco membros do comité
central em Lisboa. Uma revolta de esquerda com o objectivo de oferecer apoio á
república, mas desviada depois á direita.
Carlos
Vilhena, ativíssimo dirigente dos primeiros momentos, com Mendes Cabeçadas,
Ochoa, capitão Baptista e outros, multiplicaram-se pelos Ministérios da Guerra
e do Interior, na Amadora e em Sacavém, em reuniões decisivas no Carmo e nas
Janelas Verdes. Ao cabo sentiu-se traído pelos oportunistas, pelos
aproveitadores sem escrúpulos, pelos vira-casacas...
-
“Têm uma série de casacas, umas de uma cor, outras de cores diferentes.
Vestem-nas, tiram-nas, põem-nas aos ombros...”
Carlos Vilhena considerou o movimento completamente
deturpado. Toma um compromisso perante amigos e correligionários. “Quando
tomo um compromisso vou até ao fim”.
Cinco
dias volvidos, conspirava contra o regime.
Começara a tragédia do menino feito homem que se
revoltava contra as injustiças dos professores, que honrava os compromissos,
que não abandonava os amigos, que “não sabia nada de política nem dessas
manhosices” ...
Iniciou-se
em Junho de 1926 a revolta de um militar sem ódios, “um sentimento interior”.
Simplista na forma de expressar o seu pensamento:
-
“Em Portugal havia 9 milhões de habitantes, 4 milhões de mulheres, 2 milhões de
crianças, 1 milhão e tal de desmiolados, uns tantos ricos e alguns
esclarecidos, dispostos a lutar”.
Convicto:
“as revoluções contra a ditadura tiveram a elite deste País; cinco membros do
Governo estiveram exilados comigo em Madrid”.
Humano:
“os regulamentos não valem nada se não forem interpretados e a disciplina passa
a ser um vício”.
Contundente:
“o Salazar e o Marcelo Caetano eram juristas, mas entregaram o Direito nas mãos
da P.I.D.E.”.
Prático:
“as discussões podem ser muito boas, mas as realidades é que contam”.
Lúcido:
“mesmos os homens muito ilustres e de grande habilidade política erram - e de
que maneira “.
Honesto: “o compromisso do Exército para
estabelecer harmonia e paz interna eram as bases e os fins dos promotores do 28
de Maio que por isso teve o apoio considerado unânime da Nação. Sucedeu que os
acontecimentos desencadeados a seguir provocaram paixões políticas acumuladas
em espíritos fanáticos e produziu-se um grande mal-estar e confusões inimigas
da compreensão esclarecida. Depois foram-se esquecendo os compromissos jurados
entre os dirigentes do movimento e dos oficiais aliciados para ele. Resultou um
caso estranho: os chefes responsáveis foram eliminados por meio de manobras e
intrigas que levaram à deportação do marechal Gomes da Costa. Assim se deu
lugar a que pessoas alheias ao movimento seguissem rumos diferentes aos
compromissos tomados pelos oficias que nele tomaram parte”.
É
evidente que, tendo eu assinado um compromisso sob palavra de honra no comité
de que fazia parte com os aliciados para o movimento, defendendo o que tinha
ficado estabelecido, não podia aceitar, de forma alguma, como soldado fiel a
todos os princípios de lealdade e ética cívica, qualquer alternativa que
negasse tão solene compromisso de honra. Esta atitude mal compreendida e vista
grosseiramente sob o domínio de paixões de pessoas ou grupos, originou que
sofresse castigos terríveis sem justificação nenhuma perante a lei e os mais
elementares princípios humanitários: fui preso seis meses no forte de Almeida;
deportado para a ilha Graciosa, deportado para a ilha de São Miguel, deportado
para a ilha da Madeira, deportado para a ilha Terceira e preso no forte São
João Baptista, deportado para Cabo Verde onde estive 4 anos, incomunicável, no
Aljube durante dois anos, preso duas vezes na Penitenciária, onde estive mais
de 18 meses em regime de condenado e em condições piores do que os presos de
delito comum, preso em Caxias, preso na Trafaria, preso no Linhó (cadeia para
condenados civis). A maioria destas prisões com períodos de incomunicabilidade
nos «curros» do Aljube. Todas constantes dos arquivos da P.I.D.E.: 1927, 1928,
1931 ,1933, 1934, de 1935 a 1939 (África), 1945, 1946, 1947, 1949, 1952, 1959,
1960 e 1963.”
Um conspirador que ajudou a construir o 28 de Maio
O
capitão Carlos de Jesus Vilhena nunca mais parou de conspirar: esteve em todas.
O insucesso do 7 de Fevereiro, para ele, justificou as
conspirações seguintes, pela violência com que o Governo reagiu: milhares de
mortos e de deportados. Daí em diante, pode afirmar-se que houve
permanentemente movimentos conspirativos no País. “Política da mama e do
cabresto” é como o capitão Vilhena define a acção de Salazar. “Se queres
mama, põe o cabresto”. Muitos estiveram de acordo, acrescenta Carlos
Vilhena, para concluir: “Depositaram o patriotismo em bancos estrangeiros”.
A
cobardia, a resignação e o medo passaram a ser doença nacional, os três grandes
inimigos dos portugueses. A crueldade da política e a injustiça foram leis: “Se
alguém é competente, mas é contra nós, deixa de ser competente”. Sempre
voluntário, (“tenho três guerras no papo”) para as missões mais arriscadas. “O
28 de Maio eliminara a liberdade.
Salazar não mantinha o equilíbrio no povo, mas tão-somente no papel”.
Vieram
as prisões, no Limoeiro, “com malandros”. Nos «curros» do Aljube.
Deportado
para Angra do Heroísmo com o almirante Mendes Norton e outros oficiais, não
hesitava em verberar, em termos claros, o procedimento do comandante do forte.
O mesmo faria com os “pides” a quem, tranquilamente, avisava estando detido na
António Maria Cardoso: “Quando pessoas capazes e sérias tomarem conta disto,
vocês serão presos e ainda devem dar graças a Deus, porque em liberdade, o povo
cortava-vos a cabeça”.
Dos
Açores para a Madeira, aproveitou para participar na revolta de 1931. Chegou a
ser o comandante militar do Funchal. Não tinham armas nem receberam as que
esperavam. As peças de artilharia partiam as rodas quando disparavam. Apresou o
“Carvalho Araújo” e, com os companheiros, resistiu durante 28 dias. Açores
aderira. Recusaram a solidariedade de Angola a fim de “evitar que o conflito
adquirisse proporções excessivas”. Tropas enviadas do continente sufocaram a
rebelião.
Andou
fugido. Seis dias a comer bananas, dois dias no fundo de um poço. Um barquinho
de pesca, o “Santo Amaro” permitiu-lhe evadir-se para Tenerife. Foi demitido do
exército e expulso do País. Espanha, Cádis, Madrid, Corunha, viagens a Lisboa,
a mulher disfarçada de saloia e ele de carpinteiro, serra ao ombro e tábuas
debaixo do braço. Uma moradia na rua Damasceno Monteiro era local de encontros
secretos.
No mesmo ano, uma reunião em Paris foi presidida por
Bernardino Machado. Cunha Leal que também estava presente, afirmaria mais tarde
“A história da República seria outra se as minhas relações com Afonso Costa
fossem as que passei a manter com ele desde essa data”.
Deportado
para a ilha de São Nicolau em Cabo Verde, ao fim de 4 anos e a instâncias do
almirante Mendes Cabeçadas, do engenheiro Cunha Leal e do capitão Botelho
Moniz, Salazar, mau grado a contrariedade da P.I.D.E., autorizou que o exílio
de Carlos Vilhena terminasse em 1939.
13/02/1975
III – Craveiro Lopes e Botelho Moniz em dois movimentos malogrados
Fernando
Oneto bem nos disse que falássemos ao capitão Vilhena. E o capitão Vilhena
continua a falar...
-
As conspirações enfiavam-se como as contas de um colar. A dos generais em
Tomar, a do 12 de Março, organizada no escritório do capitão Vilhena na rua dos
Anjos. Perfeita até aos pormenores. A cidade enquadrada. Médicos e ambulâncias
a postos. Cavalaria 7, com o capitão Romba e um oficial de Marinha Costa
Santos, a aguardar o eclodir da sublevação. Martins de Lima no Quartel-General.
Setecentos homens com metralhadoras montadas em carros. Grupo de civis. E o
adiamento, no último minuto porque os chefes... se convenceram de que assim
seria maior a certeza do êxito. Um “pide” infiltrado, Carvalho Afonso (já
falecido), entretanto pusera a Polícia de sobreaviso quando a revolta estava
praticamente na rua. A inexperiência de alguns fez o resto. A P.I.D.E. desmantelou
a operação.
A
conspiração de Craveiro Lopes em que o marechal participou directamente, após
conversações com o conde de Águeda, igualmente em fase adiantada, com um
escritório de publicações turísticas (Sol e Rua), na rua de Cabo Verde, a
encobrir as actividades conspirativas, com um programe socialista, com
aliciamentos no Exército e na Marinha, com um governo constituído de que o Dr.
Dias Amado seria presidente. Era a “Organização República” com um manifesto ao
povo já redigido. Uma conspiração que falhou porque Craveiro Lopes em Luanda
aguardava um encontro com um paraquedista para assumir o comando das tropas.
Esse militar lendo a notícia da partida do marechal para Lourenço Marques (o
que era falso) não compareceu. como estava aprazado, no hotel.
A
conspiração do general Botelho Moniz (o qual na altura em que nomearam Humberto
Delgado para o Canadá, lhe escreveu a dizer que esperasse porque se faria o que
fora combinado nos Altos Estudos Militares. O coronel Montalvão, amigo de
capitão Vilhena e compadre de Botelho Moniz, encarregara-se das ligações
entregando, ao então ministro da Defesa, os panfletos e esclarecimentos que iam
sendo elaborados.
A Revolta de Botelho Moniz foi provocada pela oposição
cujas razões impressionaram muitos oficias. Os meios militares tinham plena
consciência da crise. Vomitavam a ditadura. Apenas uma certa minoria que
arrecadava benefícios da situação e chegara a general promovida não pelos seus
méritos, mas por escolha da super P.I.D.E. que era o Ministério, alinhava ao lado
do governo. Como ministro da Defesa, Botelho Moniz estava ao corrente do
descontentamento dos oficias. O Brigadeiro Barata, na época comandante das
forças da N.A.T.O. em Portugal e sobrinho do capitão Vilhena, encontrou-o no
Rossio e disse-lhe: “Tio, agora é certo!
“Se é certo arranjo-te rapidamente vinte ou trinta oficiais”.
O golpe de Botelho Moniz não vingou. Na opinião do
capitão Carlos Vilhena, porque o “vício” da disciplina travara, mais uma vez,
os militares e porque o general não teve o cuidado de criar um dispositivo que
prendesse o dr. Salazar “sem conversas”. “O primeiro a dar o alarme
foi um coronel que queria ser general (“se és amigo tens mama” ...). De
Mafra telefonou para o Presidente do Conselho, o segundo foi um oficial que
mais tarde serviu na Guarda Fiscal.
Eleições
e exílio de Humberto Delgado
-
Desistir não faz parte do vocabulário do capitão Vilhena.
A
candidatura do general Humberto Delgado à presidência da República foi decidida
no Porto em casa do arquitecto Artur Andrade, hoje presidente da C.M.P. Em
Lisboa houve reuniões de oficias em casa do capitão Almeida Santos.
A
candidatura começou a organizar-se na rua dos Anjos, no escritório do capitão
Vilhena, sendo chefe da segurança Fernando Oneto.
Eleições.
“O general era explosivo e usava linguagem do povo e o seu entusiasmo levantou
o País. As “eleições-burla” roubaram-lhe a vitória.
Exílio. “Não se interrompeu a nossa esperança. Por
duas vezes o general esteve em Portugal. Na segunda, encontramo-nos no Jardim
dos Anjos. “Ninguém sabe que estou em Lisboa. Só você”. Passearam muito
tempo de automóvel, com um lenço na cara pretextando dor de dentes. Humberto
Delgado alojou-se numa pensão perto do Hotel Ritz. Pediu para Manuel Serra,
recém-chegado do Brasil, o procurar.
As
mulheres do capitão Varela Gomes e de Francisco Veloso foram a casa do capitão
Vilhena: “Mas hoje faz-se a revolução em Beja...”.
O
general mudara-se para uma casa particular. Piteira Santos, Francisco Veloso,
Ayala (que tratara da ida de Palma Inácio para o Canadá) acompanharam-no. Em
Beja, Varela Gomes, ferido a tiro, quase morreu. Humberto Delgado partiu para
Barca de Alva.
O
25 de Abril: ressurreição dos Portugueses
-
O 25 de Abril foi a ressurreição dos Portugueses. Carlos Jesus Vilhena
rejubilou! Reuniu, no mesmo pensamento amigos e companheiros de luta vivos ou
mortos: Francisco Aragão, Cunha Leal, Jaime Cortesão, António Sérgio, Ribeiro
de Carvalho, Daniel Neves, Fernando Pessoa, Lopes Vieira, António Tinoco,
Pélico de Oliveira Neto, o João Polícia, o bondosíssimo padre Pio, os seus
irmãos Júlio e Augusto e centenas de outros. Rejubilou na esperança e no
optimismo. “O que de mau haja que se está a passar é natural: apenas espuma de
48 anos de opressão.
O
25 de Abril deve ser aplaudido até pelos reacionários. O País estava à beira do
abismo. Haverá alguém honesto, seja ele quem for, que, sabendo agora o que foi
a crueldade das cadeias, a censura, a P.I.D.E., a máquina vergonhosa da
repressão, ainda defenda o fascismo?
Os
olhos riem-se-lhe ao afirmar “A política tem de ser de ataque! Para se comer um
bife tem de se esfolar o carneiro”.
Gravemente: “A miséria rodou as pessoas para a
cadeia... não deu ao povo oportunidade de fazer a sua educação cívica. Portugal
foi uma casa de prego do trabalho e as dificuldades engendram a violência...
cabe aos cultos e aos inteligentes de se colocarem ao serviço da sociedade...”
As
palavras fazem corrente. As ideias vão e vêm no entusiasmo dos gestos. “Os
problemas de hoje têm de ser resolvidos pela via do socialismo. Não se trata de
ser da esquerda, da direita do centro, do inferno, de se ser católico ou
protestante. É uma causa comum a todos os homens, que têm uma missão a cumprir
na vida, em luta constante por aquilo que são e por aquilo que amam para não
viverem e envelhecerem sem fazer nada”.
A
rudeza franca e transparente do alentejano: “Há muito que aprender e ensinar. O
povo tem de ser esclarecido”. Sem paixões. A política faz-se com justiça, que
não será comunista, nem socialista nem monárquica. ... Justiça para o povo que
a merece. Essa a razão por que os meus amigos são os que estiveram comigo na
cadeia: comunistas, socialistas, católicos, fosse quem fosse. Os que, na hora
própria jogaram os seus interesses e a vida pela causa do povo. A Justiça não
tem cores, não pode ter... Há que esclarecer e ensinar. Em algumas regiões de
Portugal as mulheres nem sabem parir”.
Carlos
Vilhena acusa: “Pode-se alinhar à esquerda e ser-se reacionário mental. Conheci
muitas pessoas inteligentes, homens extraordinários, abertos ao progresso que
eram monárquicos. E conheci republicanos absolutamente reacionários,
mentalmente reacionários. Aqui é que está um dos aspetos dramáticos dos nossos
problemas. É avançado quem adopta soluções avançadas, não quem se rotula de
avançado.”
Insiste: “Tem de se ajudar o povo. A inteligência é património nacional. Mas a inteligência descalça não é património nenhum.”
A
“Lusie”, organização-sombra
-
O capitão Vilhena “esteve em todas” ... foi vítima de perseguições, preso a
tiro, teve a casa assaltada pela Polícia. A mulher esteve presa, suportou
humilhações, privações mesmo de um relativo conforto. Nada fez desviar Carlos
Vilhena – nem um milímetro- dos seus princípios. O escritório histórico da Rua
dos Anjos (“Nunca tive jeito para negócios, o deve e o haver não são comigo”)
escondeu anos e anos de conspiração contra o fascismo. Ali se montou uma
organização-sombra para apoiar as conspirações e que a P.I.D.E. não logrou
descobrir: a Lusie (Luta, União, Solidariedade, Inquérito, Estatística) de que
António Sérgio foi membro.
Pilhas
de documentos estiveram enterradas nos arredores de Lisboa. O 25 de Abril
trouxe-as para a luz do dia (“As Forças Armadas têm quer garantir a Democracia
antes e depois das eleições.”)
Com
86 anos, o capitão Vilhena pensa na juventude, tão sacrificada na guerra
colonial de que a Índia foi o início desprezado por Salazar. Pensa na juventude
“sagrada, monstruosamente perseguida a tiro e com cães-polícias”. Não quero o
sangue de ninguém, sou a pessoa mais pacata do mundo. Adoro a vida e pretendo justificá-la
a meu modo com as minhas qualidades e defeitos. “Um livro de muitas páginas não
daria para contar a vida do capitão Carlos de Jesus Vilhena, que aos 86 anos,
aprumado e ágil com o vigor de homem de meia-idade, afirma, num riso aberto; “A
minha bateria ainda está um bocado carregada...
Não,
nem um livro de muitas páginas daria para contar a sua vida.
14/02/1975
IV – Como se gorou a Revolta de 12 de Março de
1959
Fernando
Oneto retoma o fio das recordações...
-
Eu conhecia muito pouco os meios oficiais ou oficiosos da oposição, dita
tradicional. O capitão Vilhena surgiu-me como um símbolo de resistência. Pela
mão do extraordinário homem que ele é, trabalhei na candidatura do general
Humberto Delgado como um dos encarregados da segurança. Do que foram as
eleições e o subsequente asilo político do general toda a gente sabe.
Entretanto o capitão Vilhena confidenciou-me que estava em projeto uma
conspiração contra o Governo. Eu sempre mantivera a convicção que o fascismo
nunca poderia ser batido por eleições ou por qualquer outra acção política mais
ou menos forte, mais ou menos clandestina. O fascismo teria de ser batido no
terreno dele, ou seja, pela luta armada. Foi quando o capitão Vilhena me
apresentou Manuel Serra, chefe civil da revolta de 12 de Março, com o qual
colaborei. A propósito, devo acrescentar que, nessa convivência e nos
acontecimentos que se seguiram, tive a oportunidade de conhecer alguns dos meus
melhores amigos.
A
conspiração do 12 de Março absorveu-me completamente. Na minha ficha da
P.I.D.E. está:
“Preso em 12 de Março de 1959. Proc. 368/59- D.
Inv.
Elemento
que desenvolveu grande actividade na preparação do Golpe de Estado que estava
planeado para eclodir na madrugada de 12/03/1959. Remetido ao 1° Tribunal
Militar Territorial de Lisboa em 17/07/1959. Em 29/10/1959, foi punido com 4
dias de privação de exercícios ao ar livre. Em 26/01/1960, foi punido com 15
dias de prisão em célula disciplinar. Em 11/05/1960 foi punido com um mês de
proibição de correspondência. Em 1/07/1960 foi punido com a sanção de 30 dias
de proibição de visitas.
Em
14/12/1959 evadiu-se do 1° Tribunal Militar Territorial de Lisboa tendo sido
recapturado no dia imediato.
Julgado em 25/07/1960, tendo sido condenado em 12
meses de prisão, sendo levada em conta a preventiva sofrida, e na suspensão dos
direitos políticos por 3 anos, cuja execução da pena foi suspensa por 3 anos.”
-
Isso é certo. Fazíamos as reuniões nos claustros da Sé, que o padre Perestrelo,
capelão da Armada, facilitava. Nessas reuniões, muitos dos participantes eram
católicos progressistas (embora ainda não tivessem essa designação), como o
Manuel Serra dirigente da J.O.C. e muitos outros.
Congeminámos,
conspirámos, e na noite de 11 para 12 de Março, às 3 horas da manhã, estava
tudo pronto para desencadear a revolta. Tínhamos, por nós, desde a Polícia de
Segurança Pública e a Guarda Nacional Republicana até forças militares
poderosíssimas. Apesar disso a revolução falhou, como falharam todas as
revoluções militares até ao 25 de Abril. Falhou porque os militares
responsáveis por essas revoluções na altura decisiva tinham medo.
O
caso do 12 de Março é típico. Estava tudo na mão com centenas e centenas de
pessoas envolvidas, sem a mais leve desconfiança da P.I.D.E., que não sabia
nada, a não ser o que os presos, sob tortura, lhe contavam. Mas, na noite de 11
para 12 de Março, tão grande movimentação de oficias nos quarteis e civis nas
ruas (tivemos cerca de trezentos indivíduos na rua a aguardar o inicio das
operações, organizados em grupos com chefes e subchefes, “croquis”, missões
específicas como e onde iam actuar, não podia escapar ao conhecimento das
autoridades. O ministro da Defesa, por zunzuns que lhe chegaram aos ouvidos
(nem sequer pôs os quarteis de prevenção), mandou os comandantes às suas
unidades para verem se se passava alguma coisa de anormal. Era o Totobola que
saía aos conspiradores porque a ordem de enviar os comandantes aos quarteis
permitia a sua prisão imediata. Mas a sua simples presença fez tremer os
militares que admitiram a eventualidade de estarem descobertos!
Veio
a ordem de anular a revolta, com as consequências inevitáveis. Uma tal
movimentação conspiratória que mobiliza centenas de pessoas, quando detida, só
tem um destino: vai tudo preso. Já se sabia que ia tudo preso, era evidente.
Pelo que me toca, à meia-noite, saí dos claustros da Sé, fardado (fora
mobilizado pelo Comando Revolucionário, no meu posto que era de tenente).
Esperava-me uma camioneta para ir a Cavalaria 7 onde me seria entregue o
armamento que distribuiria aos elementos civis, no Mercado Geral de Gados. Tudo
regulado ao cronómetro.
Á
porta do Regimento (foi quase miraculoso), um automóvel, conduzido pelo meu
amigo Francisco Mateus (que depois se exilou para o Brasil, interceptou-me.
Vinham também o Manuel Serra, o comandante Costa Santos e o major Pastor
Fernandes. Informaram-me de que a revolução já não se fazia. Gritei,
barafustei, protestei... resumindo, no dia seguinte, quando transitava na
Avenida Almirante Reis, no carro do Mateus, com ele, o Manuel Serra e o Jaime
Conde (igualmente exilado no Brasil), fomos todos presos. Aí começa outra fase
da minha vida: preso na P.I.D.E.
Preso na P.I.D.E.
- Nesse tempo” – continua Fernando Oneto, “não me tinha
ainda definido politicamente em termos partidários. Apenas sentia como uma
ofensa pessoal a horrorosa injustiça do regime que governava o País e que se
tornava imperioso combater. Era puramente antifascista sem necessidade de
definir ideologicamente esse antifascismo. Só mais tarde na convivência com
Mário Soares e com os seus amigos políticos é que vem a minha opção partidária.
Pode dizer-se que me atirei em “hastes limpas” contra os fascistas. Um sentido
de justiça fazia-me romper, de cabeça baixa, contra tudo que me parecesse
injusto. O que acontece ainda hoje, felizmente.
Voltando
aos factos, vínhamos na Almirante Reis, quando uma viatura da Polícia de Viação
e Trânsito se atravessou à nossa frente, mandando-nos parar. O Manuel Serra
disse “isto não é nada”, mas eu tive logo a certeza que era o princípio da
bronca”. Um agente, que tremia de medo como varas verdes, aproximou-se de nós e
ordenou que saíssemos do carro. Imediatamente fomos cercados e levados para a
esquadra de Arroios. O chefe não sabia nada do que se passava, só tinha ordem
de nos deter ali. Tive tempo de ir à retrete, rasgar uma papelada bastante
comprometedora. Ficámos nas conversas habituais: “Mas que é isto? Presos
porquê?”, respondiam-nos: “não sabemos, mas os senhores esperem que já vão
saber.” O “já vão saber” foi a entrada dos homens da gabardine azul.” Aqui,
Oneto faz um parêntesis para esclarecer: os “pides” sempre tiveram uma
tendência - mais nos anos cinquenta - para andar vestidos de forma... pidesca.
Muitos deles usavam as gabardines com platinas das fardas e calçavam sapatos
castanhos, o que além de ficar pessimamente os denunciava com relativa
facilidade.
Em Arroios, afivelaram a máscara mais profissional
possível, dividiram-se em duas filas e transferiram os presos para uma
carrinha. Rodámos até à António Maria Cardoso - recorda Oneto - a uma
velocidade louca, nitidamente para nos assustar. Avisados de que não podíamos
falar uns com os outros, chegámos à garagem da P.I.D.E., que comunica com a
sede, e fecharam-nos numa sala para sermos interrogados um a um. Salvo erro,
fui o segundo. Conduziram-me a um gabinete e, passados segundos, entrou
teatralmente, um homem que viria a ser um dos meus principais carrascos, o
inspector Boim Falcão (que morreu em África), seguido por um personagem menor,
o subinspector Farinha dos Santos, agora em Caxias. Recuei. O Boim Falcão
tranquilizou-me, entre cínico e paternal: “Senhor Oneto, não tenha medo,
porque aqui ninguém lhe faz mal. Queremos só saber o que se passou...”.
A
conversa do costume. E ele para o polícia: “não se passou nada. Não percebo,
passeava com uns amigos, prenderam-me. O que todos dizem nessas alturas.
Riram-se como se ri qualquer polícia do mundo, nas mesmas circunstâncias.
Também ele deve ter sorrido, como diz, “com ar estúpido”, e mais não se
adiantou.
Mandaram-me
para o Aljube, uma cadeia sinistra que fechou em 1966. Por ironia, situada em
frente da Sé, onde conspirámos. Era de madrugada quando cheguei.
Identificaram-me. O senhor Salgueiro
(hoje, como bom técnico de prisões, é funcionário em Caxias) ia
escrevendo. Na pergunta: “preso por?”,
anotou: “actividades subversivas”.
Protestei
logo: “Que é isso? Actividades subversivas? Sei lá porque é que estou preso. Há
sem dúvida algum engano”, que é também o que toda a gente diz. Ele riu-se e
riscou.
Da
secretaria passei para o célebre primeiro piso chamado isolamento onde um
guarda, que me revistava, perguntou, baixinho e a medo:
- “O senhor não é comunista, pois não?” – Não.
Não sou. -E ele:
- “Ah! Ainda bem. Ainda bem. Ainda bem...
Porque
é que eu havia de ser comunista? Porque é que ainda bem eu não era?”
Relatando
o teor da sua narrativa, Fernando Oneto prossegue:
-
“Só mais tarde compreendi o sentido da pergunta. Seguimos por um corredor
estreito e o homem abriu uma porta. Não disse nada. Eu olhei lá para dentro e
olhei para ele.
–
“Mas... é para ficar aqui?”
- “É, é para ficar aqui”.
Os
«curros» do Aljube eram espaços de quatro palmos por oito, nalguns casos;
noutros, duplos, tinham quatro palmos por dezasseis, onde cabiam dois bailiques
(tábuas a servir de camas).
Parecia
impossível que fosse sítio para ter gente. Nem se queria acreditar. Pensava-se
que se ia ficar por lá apenas enquanto não se fosse instalado numa verdadeira
cela. Uns minutos...
O
guarda, um tanto comprometido (talvez o condoesse a minha cara de menino),
confirmou:
- “O senhor vai ficar aqui”. Conformei-me.
-
“Está bem...”. Sabia que não era aquele o homem que podia resolver fosse o que
fosse. Entrei. Fechou-se a porta”.
Cerca
de uma hora volvida, veio um servente, baixo, gordo, género “zé-povinho”,
varrer o “buraco” (como alguns chamavam os «curros»). Enquanto fazia a limpeza
da “sala”, comentou:
- “Não há direito! ter homens presos nestas
condições!”.
-
Ri-me para dentro... aí estão eles! Agora, vem este tipo dizer que não há
direito a espera que eu faça coro. Fiquei calado. Cometi, provavelmente a maior
injúria da minha vida. Esse servente era um homem bom, que ajudava os presos e
que mais tarde constituiu um caso único nos anais judiciários desta terra. Era
o servente Martins, ao qual chamávamos o “Zé Gordo”, que foi encarcerado pela
P.I.D.E. que desconfiava que ele fazia favores aos presos. Era um homem bom,
repito, que lamentava a nossa sorte. Acusaram-no de pertencer ao Partido
Comunista o que era falso. O Tribunal Plenário absolveu-o da acusação, mas
condenou-o a medidas de segurança. Uma perfeita ignominia. Esteve preso três
anos.
Não conheço infâmia maior. Não se provou (nem se
podia provar porque era mentira) que o réu pertencesse ao Partido Comunista. No
entanto o tribunal decidiu: “-Está bem, não és comunista, mas vais para a
cadeia na mesma”. Não me lembro quem foram os juízes que intervieram no pleito
nem do procurador, mas pensar que estão em liberdade a receber os seus
vencimentos, a minha vontade é ir eu mesmo à procura deles e pedir-lhes contas!
Quase dez meses depois do 25 de Abril! Que nos teriam eles feito a nós se as posições
se invertessem?
15/02/1975
V - Quinze meses à espera de julgamento
A investigação do 12 de Março foi para a Polícia
relativamente fácil (a informação é de Fernando Oneto que retomou o seu depoimento).
- Prenderam muitas pessoas pois cada um referia
qualquer facto, pressionado, não pela força (desta vez não fui torturado como o
viria a ser depois). Claro que os interrogatórios se faziam de noite, não me
deixavam dormir, mas não exerceram grandes violências sobre mim. Não era a
tortura, mas a fraqueza da nossa inexperiência.
No Aljube, civis de um lado nos «buracos» de
quatro palmos por oito, os militares na Trafaria a tomar banhos de sol... e a
receberem visitas quando queriam ao passo que, a nós, só permitiam ver a
família uma vez por semana durante um quarto de hora e controlados pela
polícia. Esta situação manteve-se durante muito tempo até que nos levaram para
Caxias, juntando-nos numa sala - as famosas “salas” de Caxias - a aguardar
julgamento, eu, o Francisco Mateus, o Jaime Conde, o Raul Miguel Marques e o
Amândio da Conceição Silva (actualmente chefe de Gabinete da Secretaria de
Estado da Imigração, por excesso de trabalho, adormeceu recentemente ao volante
e ficou gravemente ferido).
Ficámos quinze meses à espera de julgamento em
Tribunal Militar. As sensações, a vivência, as camaradagem foram para mim um
mundo novo. Por paradoxal e estranho que seja, quase chegamos a ter saudades
desse período.
Os primeiros contactos com os guardas de Caxias
foram terríveis. Como calcula, pretenderam submeter-nos à disciplina da prisão.
Recusámos. Recusámos frontalmente obedecer ao regime que nos impunham.
Levantávamos-nos e deitávamos-nos às horas que queríamos. Não aceitávamos,
ostensivamente e aos gritos, descascar batatas, por exemplo. Não alinhávamos em
frente das camas, como manda o regulamento, ao chegar o chefe dos guardas...
Disso é espelho a ficha da minha vida prisional com os múltiplos castigos de privação
de exercícios ao ar livre, de visitas e outros. Sofri prisões disciplinares que
consistiam em regressar aos «curros» do Aljube.
Tudo experimentámos, mas a grande descoberta foi
a solidariedade dos presos. Não a de nós os cinco, que essa não estava em
causa: a dos outros. Tivemos a felicidade de ficar ao lado de uma sala em que
estavam dez ou doze senhores do Partido comunista, presas há 6,8,10,12 anos.
Foram elas que nos ensinaram na prática o célebre telegrafo dos presos: uma
pancada na parede corresponde ao A, duas pancadas ao B, 23 ao Z...
Para vencermos as dificuldades e a confusão que
sentíamos, contávamos as pancadas num papel. Perseverámos, conseguindo ao fim
de dois ou três meses transmitir ao ritmo de uma conversa normal em cadência
lenta.
A nossa sala era a 5, na 4 estavam os senhores do
Partido Comunista. A 6 foi ocupada por dois presos, um deles muito conhecido, o
Sr. Arnaldo de Mesquita, advogado no Porto; o segundo era professor primário de
Braga tuberculoso com hemoptises a quem a Polícia negava tratamento para o
obrigar a falar. Não me recordo do nome dele, mais uma de tantas vítimas da
P.I.D.E... Ambos estavam rigorosamente incomunicáveis. Estabelecemos com eles
um «serviço de noticiário» de manhã às 10 horas e á tarde cerca das 18. Fôramos
autorizados a receber jornais e com o que sabíamos através de visitas e de
outros meios, dispúnhamos de uma rede de informação bastante completa. Assim
contribuímos para que os dois homens mantivessem contacto com o exterior, o que
era muito importante na situação em que se encontravam.
A solidariedade é uma forma de sobrevivência de
valor inestimável para os presos. Nuca poderei esquecer, por exemplo, a
solidariedade das senhoras do Partido Comunista, que à nossa chegada logo nos
transmitiram: “Conhecemos o vosso caso. Aguentem-se. Não falem”. Coisas que
nunca mais se esquecem.
Comunistas:
os maiores perseguidos
-
Aos domingos, a Guarda Nacional Republicana, encarregada da vigilância
exterior, içava a bandeira nacional. Os presos cantavam a «Portuguesa», atitude
que os nossos carcereiros classificavam de subversiva. Era-se punido,
porventura espancado (aconteceu a muitos) por cantar o hino nacional.
Também
relembro aquela música do Lopes Graça com letra de José Gomes Ferreira, «Vozes
ao alto, vozes ao alto, unidos como dedos da mão, haveremos de chegar ao fim da
estrada, ao som desta canção» que as senhoras e os outros camaradas do Partido
Comunista entoavam. Nós não conhecíamos essas canções, mas rapidamente as
aprendemos e sempre que eles as cantavam, nós fazíamos coro.
No
dia 14 de Julho, fui autor de uma inovação em Caxias, onde a data não era
festejada pelos presos. Pedi, transmitindo de parede em parede que se cantasse
a «Marselhesa» que é um maravilhoso hino á Liberdade.
Entretanto
o rigor prisional em relação a nós abrandava. Ao contrário, os comunistas
estavam sujeitos a um regime muitíssimo mais duro. Os guardas recebiam ordens
para usarem do maior rigor em relação os membros do partido Comunista ao mesmo
tempo que tinham instruções da Polícia para serem «benevolentes» connosco...
Prestámos-lhes a maior solidariedade que pudemos e eles a nós. Foi uma
experiência linda que tive na cadeia.
«Rádio Moscovo disse...»
-
Naquela época, alguns presos, por menores acusações (de que a P.I.D.E. se
arvorara em único juiz), pelas profissões que exerciam na vida civil e ainda
pela pouca convicção das suas ideias, prestavam-se a pequenos trabalhos de
canalização, de electricidade ou de carpintaria. Em troca, obtinham certas
vantagens, nomeadamente andavam em liberdade dentro da cadeia e recebiam
visitas com mais frequência.
O
Partido Comunista condenava estes seus militantes que aceitavam «colaborar» o
que não impediu ter sido um destes homens que realizou a única e espectacular
fuga registada em Caxias.
Para
quem não conhece o episódio, resumidamente o conto: os membros do Comité
Central do Partido Comunista estavam na cadeia, quando um preso, mecânico da
Carris, foi encarregue do parque automóvel. Um dia, o «Mercedes» que Hitler
oferecera a Salazar foi para Caxias a fim de ser reparado. O plano de fuga
baseou-se nessa circunstância. À hora do recreio, na cerca, os comunistas
entraram no automóvel e arremeteram contra os portões da cadeia que arrombaram.
De nada valeu aos guardas dispararem porque, como se sabe, o carro era à prova
de bala.
Voltando
aos presos que trabalhavam na cadeia, os guardas não deixavam que eles falassem
connosco. Em especial o director e a direcção da Polícia proibia-nos contactos
com os comunistas, a tal ponto que (aconteceu noutra prisão que sofri), após um
longo isolamento, pedi ao Boim Falcão:
-
“Dê-me uma companhia”.
- “Impossível, respondeu. Neste momento só estão
presos comunistas. Não vou pô-lo ao pé da gente do Partido”.
-
“O senhor tem medo de que eu os convença a colaborar num «putsch» militar”?
Ele
riu-se, mas não cedeu.
-
Efectivamente, havia uma discriminação de tratamento em relação ao Partido
Comunista. É preciso que os portugueses saibam que os comunistas foram vítimas
da maior repressão da Polícia, de muitíssimo maior rigor na vida prisional. Tem
de se saber porque é verdade.
Para
além de possíveis divergências actuais, temos de reconhecer que eles é que
pagaram o preço de tudo isto. Nós pagámos também, mas muito mais barato.
Um
dos tais presos que efectuavam trabalhos na cadeia foi alcunhado de «Rádio
Moscovo» porque sempre que passava por nós, segredava:
-
“Ontem, Rádio Moscovo disse...”. Vinha o guarda e ele não continuava. Uma
ocasião em que substituía uma lâmpada fundida, começou, excitadíssimo:
-
“Vocês sabem que ontem Rádio Moscovo disse” .... chegou o guarda, e como de
costume, ficámos na mesma.
Para
cúmulo, numa tarde, vimos aparecer a ponta de uma escada de mão, no lado de
fora da sala. Debruçando-se lá do alto, enquanto fingia uma reparação, o homem
sussurrou:
- “Eh pá! Ontem, Rádio Moscovo...”
-
Zás! Foi puxado pelas pernas e nós, em ano e meio de Caxias, ficámos sem saber
o que Rádio Moscovo tinha dito”.
16-02-1975
VI
– Fugir do Tribunal – da janela para a rua
- Correram dias e meses sem que o Tribunal
Militar se decidisse julgar-nos. Estivemos presos preventivamente e sem culpa
formada, cerca de ano e meio, como disse (mais uma vez à consideração dos pides
presos). De modo que nasceu em nós a ideia de fugir. No fundo, todos os presos
pensam em fugir. Nós os cinco para não contrariarmos a regra, estudámos muito
seriamente a hipótese da fuga, combinando um plano que, em teoria, era
maravilhoso. Em princípio, é impossível a um preso fugir de Caxias (a não ser no
«Mercedes» do Salazar...). Portanto, o nosso plano tinha uns certos
condicionalismos, fundamentalmente haver um motivo para sairmos.
O pretexto foi, ao cabo, o próprio Tribunal
Militar, aonde nos levavam, para sermos interrogados pelo juiz auditor a quem
cumpria fazer um relatório sobre o processo antes do julgamento. Na segunda vez
que fui ouvido, o juiz deu-me o rascunho desse relatório, em que o mínimo que
se dizia de nós era que merecíamos o galardão de heróis nacionais. Achei
estranho e esbocei um agradecimento:
- “Oh! Senhor doutor...”
Interrompeu-me: - “Penso
isto dos senhores e é isto mesmo que vai ser dito”. Ao juntar-me aos
rapazes manifestei-lhes a minha surpresa:
- “Ena!
O juiz tem uma coragem extraordinária, mandando um relatório daqueles”
- “Voltámos ao tribunal uma semana depois, outra,
e outra... e o relatório sempre em rascunho, a lápis. Fiz as minhas
investigações, embora preso, e soube que o general Carrasco andava a conspirar,
admitindo-se que viesse para a rua com tropas. O juiz, dentro do segredo, fazia
um investimento no futuro ao dizer que éramos heróis nacionais. Mas eu conhecia
o general Carrasco (fora meu comandante em Mafra, no curso de oficiais
milicianos) e tinha, já alguma experiência das conspirações da tropa. Por isso disse
aos meus companheiros: “Se estamos à espera de que o Carrasco faça a revolução,
nunca mais saímos de Caxias. Na vez seguinte que me levaram ao juiz
declarei-lhe à queima-roupa:
- “Senhor doutor juiz nem o Carrasco sai, nem a
gente almoça, de modo que, senhor doutor, deixe-se de fitas...”. Assim mesmo.
Cabe esclarecer que uma pessoa enquanto está
preso, adquire uma estatura, uma independência e uma desenvoltura que não tem
noutras circunstâncias. Porquê? Porque a prisão é o pior que lhe pode
acontecer. O que amedronta um cidadão normal é dizerem-lhe: “O senhor vai
preso”. Se já está preso, mantém a calma e diz o que quer dizer. Mais preso,
menos preso... era o meu caso.
Continuei:
- “Se o senhor doutor está a espera que o general
saia para mandar o relatório para cima, desiluda-se. O general fica em casa”. O
juiz mostrou-se embaraçado. Nem resposta. Arrisquei:
- “Nós vamos fugir, mas precisamos da sua ajuda
que se limitará a chamar-nos todas as semanas. Pode fazê-lo por mil e uma
razões”. Meditou, mirou-me, hesitou e respondeu:
- “Está bem. Mas façam isso bem feito”.
Cumpriu. Todas as semanas nos chamava, enquanto
planeávamos uma fuga fantástica: Saíamos de Caxias na carrinha com os pides.
Atrás de uma das colunas do átrio do Tribunal Militar estaria o António Pedro
Correia Vilar (um motorista de praça muito valente e generoso, que morreu no
assalto ao quartel de Beja), que dominaria os nossos guardas com uma pistola.
Regressávamos à carrinha (pides incluídos), íamos buscar o Manuel Serra ao
Hospital do Rego, onde ele estava internado, e pedíamos asilo político à Embaixada
do Brasil. Era tecnicamente possível.
Chegou o dia. Tudo pronto, tudo combinado, o
Serra e o Vilar avisados. Ao abandonarmos Caxias, um guarda disse para os
pides:
- “Tenho a impressão de que eles se vão pirar
hoje”.
- “Ficámos sem pinga de sangue. Mais tarde
soubemos que fora apenas uma boca sem qualquer significado. Chegámos ao
Tribunal numa tensão nervosa fácil de calcular. Passámos o átrio e... nada, o
Vilar não estava. Um lindo plano de fuga por água abaixo. Ao subir as escadas,
falei para a rapaziada:
- “salve-se quem puder. Eu vou fugir”. Entrámos
na antecâmara do juiz comigo à frente. A tensão não diminuía porque eu tinha
dado a minha palavra de honra “Eu fujo, hoje fujo”.
O gabinete do juiz estava cheio de gente; além do
magistrado e do escrivão (um sargento fardado), o promotor de Justiça e vários
oficiais.
Comecei a prestar declarações. As perguntas
incidiam sobre altas individualidades envolvidas na conspiração. Que as havia.
Competia-me informar das que sabia e das que me viessem à cabeça para lançar a
confusão. Referi Craveiro Lopes, o Santos Costa - todos neste País, pelo meu
testemunho, tinham culpas no cartório. O sargento escrevia, horrorizado. Às
tantas o juiz disse-me, em inglês, para eu citar o nome de um general de quem
ele não gostava:
- “Você esqueceu-se de...”. Não fui
desmancha-prazeres. Mais um general para o rol.
Era Dezembro, um dia chuvoso, de ventania. Para
fugir tinha de sir dali. Os pides estavam do outro lado da porta...
- “Senhor doutor, estou com uma grande dor de
cabeça, importa-se de mandar abrir a janela?”.
- “Com certeza”.
Houve protestos por causa do frio, mas o juiz
explicou:
- “O senhor Oneto está
com dor de cabeça. Fazemos uma pausa, para eu ir a casa de banho. Volto já”.
Fiquei sentado em frente da secretária do juiz. Á
direita, o escrivão, petrificado por ver os generais que para ele deviam estar
logo abaixo de Deus, metidos em conspirações. E por detrás uma janela aberta.
Levantei-me, devagarinho, aproximei-me do que era
o único caminho para a evasão, atirei-me para um algeroz e vim por ali abaixo.
O que se seguiu no gabinete do juiz (contaram-me
depois) é, autenticamente, uma história do cinema mudo.... O Capitão, que
exercia as funções de secretário do Tribunal, quando deu pela minha falta - o
que talvez tenha demorado alguns minutos porque os oficiais, durante o
interrogatório, conversavam a um canto - abriu a porta e, não conseguindo
falar, avisou os pides por gestos da minha fuga. Os pides não perceberam e
pensaram que a sessão tinha terminado. Viraram-se para os meus amigos e
comandaram:
- “Vamos embora, meus senhores”.
Até que o capitão pode articular:
- “O pre... o preso
fugiu!!!” ...
Foi uma correria pela sala. Gerou-se a confusão e
um dos pides quis tirar o telefone ao doutor Acácio Gouveia, que estava a
telefonar para o seu escritório. O pide a puxar e o dr. Acácio Gouveia, sem ver
quem era, a dar-lhe sapatadas na mão, enquanto mantinha a conversa com um seu
empregado. Os rapazes riram-se às gargalhadas.
Quando foram atrás de mim, eu estava longe.
- Vou pelo algeroz abaixo (de uma altura
respeitável) e corro por uma ruela. Chovia a cântaros. Uma senhora de idade
fizera parar um táxi. Não havia ninguém, não havia nada. Só a velha e o táxi. A
velha entrou e eu entrei atrás dela. Desculpei-me:
- “A minha mulher está na maternidade e
telefonaram-me porque surgiram problemas. Estou terrivelmente inquieto
(estava). Se não se importa, como não há outro táxi, levo-a ao seu destino e
sigo para a maternidade”. A Senhora anuiu e nunca mais se calou a fazer
perguntas:
- “É casado há muito
tempo? É o primeiro filho?”
- “Tenho uma filha, este é o segundo”.
- “Em que maternidade
está a sua mulher?”
- “Na CUF.
- “Sim senhor! E o que
é que faz?”. Ela nesta conversa e eu, de minuto a minuto a olhar para trás.
Fui ter a casa de um amigo onde passei a noite.
Asilo na Embaixada da Colômbia e regresso a
Caxias
- De
manhã fiz o giro das embaixadas para o qual elaborara, em Caxias, o roteiro,
num carão verde, que está apenso ao meu processo da P.I.D.E.
Mas, ou porque as embaixadas estivessem mesmo
guardadas, ou porque eu visse pides em todos os lados, não me decidia. A do
Brasil tinha pides, a da Argentina tinha pides, a da Venezuela tinha pides, a
única que não tinha era a da Colômbia, ali em frente ao Liceu Camões.
Dei uma volta, dei duas e à terceira tentei a
sorte. Paguei o táxi e escada acima até ao quarto andar esquerdo. A Embaixada
não se distinguia de uma casa particular. Atendeu-me um secretário a quem
disse:
- “Venho pedir asilo político”.
O homem ia tendo um ataque... foi chamar o
embaixador, pessoa talvez com mais de 70 anos que, solenemente, me garantiu,
apontando para uma grande bandeira do seu país:
- “A sombra desta
bandeira, está completamente protegido”.
O embaixador recordou as tradições de asilo
político na América do Sul, em geral, e na Colômbia, em especial, o que me
tranquilizou.
Pedi para telefonar à minha mãe e à minha mulher
para que soubessem do meu paradeiro. E o embaixador:
- “Faça favor. Mande
vir imediatamente a senhora sua mãe e a senhora sua esposa”.
Fui para a janela à espera. Chegaram num táxi - com
dois carros da P.I.D.E. a escoltá-las. Eu, no quarto andar, a rir-me.
Ia para a Colômbia. O embaixador assegurara-me
que o meu caso era de uma flagrante simplicidade. Não duvidei, porque, tanto
que me lembro, em Portugal, apenas duas pessoas cumpriram, na totalidade, os
requisitos do asilo político: o capitão Henrique Galvão e eu. Fomos os únicos
que fugimos directamente da prisão para uma Embaixada.
Perto da noite, o embaixador regressou do
Ministério dos Negócios Estrangeiros onde fora negociar a minha partida. Muito
comprometido, comunicou-me que não podia conceder-me asilo político. A sua
vida, disse, corria perigo. A chorar, explicou-me que fora recebido pelo
Presidente do Conselho, de momento a substituir o dr. Marcelo Matias, em missão
na N.A.T.O.
Calculei que o Salazar deveria ter aterrorizado
tanto o embaixador que ele estava fora de si. Concluiu tristemente:
- “O senhor tem de se
ir embora”.
- “Adverti-o:
- “Tem a consciência plena de que ma expulsa em
condições extremamente graves?” De qualquer modo, não pretendo prolongar uma
situação impossível”.
Desci as escadas, abri a porta e levantei os
braços. Os pides rodearam-me. E o meu «amigo» Rosa Casaco «filou-me» logo.
Automóvel, sede da P.I.D.E. e a recepção por
todos os maiores da Polícia. O Boim Falcão e o chefe Rego (afecto ao meu
processo) gozaram:
- “O senhor Oneto
queria abandonar-nos? Preferia trocar este encantador País pela Colômbia? Mas
que raio de terra que o senhor escolheu!”
Gozaram «à brava», mas não me fizeram mal.
Remeteram-me para Caxias, estive três ou quatro dias no isolamento e
reencontrei os meus camaradas. Assim perdi uma oportunidade de conhecer a
Colômbia.
No entanto o incidente teve consequências.
Estudantes brasileiros apedrejaram os vidros da Embaixada da Colômbia no Rio de
Janeiro. Os embaixadores da América do Sul reuniram-se e exigiram a imediata
substituição do seu colega colombiano que terminou por ser expulso da carreira
diplomática, o que foi um castigo muito duro para um homem da sua idade.
O embaixador que o substituiu ofereceu ao meu
advogado, o dr. Mário Soares, uma indemnização, que evidentemente não
aceitámos.
Quando saí da prisão, convidou-me para um almoço
durante o qual me apresentou as desculpas do seu Governo, asseverando que,
quando eu quisesse, podia ir para a Colômbia, na certeza de que me seriam
facultados os meios de uma posição confortável.
A partir daí, eu e a Colômbia ficámos em óptimas
relações. Talvez um dia lá vá.
17-02-1975
VII
– A experiência da greve da fome e o julgamento em Santa Clara
Na
cadeia o mal-estar crescia porque a marcação da data do julgamento se arrastava
até aos limites do absurdo. O Governo não ignorava que um acto desta natureza é
sempre o julgamento de um regime. Por isso adiava a decisão.
Protestámos
fazendo a greve dos cabelos, da barba e da fome. Fizemos as greves todas que
havia. Não cortamos as barbas e os cabelos valeu-nos a transferência para o
Aljube. Fomos algemados, raparam-nos o cabelo à escovinha e encerraram-nos nos «curros». Iniciei uma greve da fome de dez dias. É uma
experiência curiosa estar dez dias sem comer. A minha greve da fome era um
bocadinho «falsificada» porque de manhã bebia uns golos de café. À noite,
tomava um caldo de sopa que, às escondidas, escorria para dentro do púcaro da
água, senão morria. Mesmo assim, sofria dores de estômago terríveis.
A
P.I.D.E. telefonava todos as noites a saber se eu desistiria. O guarda, o
senhor Silva advertiu-me:
- “O senhor não come e eles fazem-lhe o mesmo que
fizeram ao capitão Galvão; uma equipa do Júlio de Matos vestiu-lhe um colete de
forças, entubaram-no e alimentaram-no pelo nariz. É muito doloroso”.
Um
dia de manhã o Silva disse-me:
- “Está aí a equipa do Júlio de Matos”.
Imagine-se como fiquei!
- “Quantos são?”
- “Dois”
Ri-me.
Tinha trinta anos e uma prodigiosa resistência física.
No
gabinete médico, o dr. Maciel Chaves (morreu sem pagar os crimes que cometeu na
Polícia) examinou-me e não acreditou que eu estivesse há dez dias sem comer.
Pelo sim, pelo não, ameaçou-me:
- “O senhor sabe que todas as polícias do mundo
obrigam os presos a comer. Portanto o senhor vai ser obrigado a comer. Não
podemos tolerar situações destas.”
Falei
para os enfermeiros do Júlio de Matos:
-
“Os senhores vêm obrigar-me a comer? Ao primeiro que se aproximar parto-lhe um
braço. De resto, sou campeão universitário de judo (não era nada, mas atirei
com essa). Agora obriguem-me a comer!
Os
homens vacilaram. Em primeiro lugar, tal serviço com um prisioneiro político
era muito desagradável para eles, depois, a minha reacção...
-
“De maneira nenhuma! Viemos principalmente para o convencer a comer”.
Eu,
que ansiava por um pretexto para acabar com a greve da fome (tinha uma fome dos
diabos), além das dores de estômago), assumi um ar conciliador:
-
“Não vêm para me obrigar a comer. Vêm para me pedir, por favor, que eu coma. É
evidente. Vou considerar...”. Não levei muito tempo a considerar.
-
“De acordo, vou comer”.
Foi
um alívio geral. Nesse dia, o almoço, que vinha da F.N.A.T., era feijão guisado
com chouriço. Ninguém me preveniu acautelando-me contra excessos. Engoli um
prato inteiro. Por sorte vomitei imediatamente, senão tinha morrido da cura.
Não
têm conto os problemas que criei durante a minha prisão. Nem os castigos.
Aliás, um relatório da P.I.D.E. sobre o meu comportamento prisional rezava:
“Mostra-se completamente inadaptável à disciplina prisional.
18-02-1975
VII
- Homenagem a dois juízes
O dia do julgamento chegou finalmente.
-
Um aparatoso dispositivo de segurança interior e exterior do tribunal
intimidava sobretudo os familiares dos réus. Uma das portas do tribunal foi
rasgada para permitir a entrada directamente, no interior do edifício, do
autocarro celular da P.I.D.E. que transportava os presos civis. Em todas as
janelas dos corredores por onde tínhamos de passar, bem como na casa de banho
de que nos servíamos, foram colocadas grades de ferro.
No
banco dos réus, seis militares e dezassete civis. A sala, como de costume,
cheia de agentes da Polícia de Segurança Pública à paisana. Uma das técnicas
que a P.I.D.E. sempre seguiu foi de encher as salas de audiência de julgamentos
políticos com agente daquela prestimosa corporação, impedindo assim a
divulgação do que lá se passasse. Talvez esse procedimento explique a elevada
taxa de licenciados em Direito existentes nas fileiras da P.S.P.
O
primeiro juiz-presidente designado adoeceu estrategicamente. Adiamento.
O
segundo teve um enfarte do miocárdio (autêntico). Novo adiamento.
Até
que o julgamento se iniciou de facto presidido pelo coronel Rui da Cunha, homem
honradíssimo, que deu à defesa uma liberdade de actuação raras vezes vista em
tribunais portugueses naquele tempo. O outro militar do colectivo era o coronel
Almeida Teixeira que teve a coragem de propor a absolvição de todos os réus
(poucos dias após a leitura da sentença foi passado à reserva). Já morreram
ambos, infelizmente. Mas os seus nomes ficarão como exemplo de coragem e de
dignidade, virtudes bem raras nesses difíceis tempos do princípio da década de
sessenta. Como exemplo de cobardia e de indignidade ficará o promotor de
justiça nesse julgamento (já esqueci o seu nome), o qual, tendo-se comprometido
com os réus a não considerar válidas as declarações feitas sob coacção na
Polícia, as deu depois como provadas, tendo baseado nelas toda a sua
acusação...
Na
bancada da defesa, o que de melhor havia então no foro lisbonense, de mistura
com três ou quatro oportunistas irrelevantes.
O
julgamento prosseguiu com grande desgaste de nervos de todos os participantes
(durou cerca de dois meses).
Por
essa altura, morreu, num desastre de automóvel, um amigo meu. Desgostoso,
aleguei doença para faltar nesse dia. Para além deste facto, sentia-me enervado
e fatigado. As sessões de julgamento eram terrivelmente desgastantes. A
P.I.D.E. obrigava-nos a ir para o Tribunal com duas horas de antecedência.
Fechavam-nos numa sala onde o calor era infernal, proibia-nos de conversarmos
uns com os outros e submetia-nos a provocações constantes (andavam «em brasa»
com os desassombrados ataques que os advogados corajosamente lhes faziam).
Mas,
como eu ia a dizer, nesse dia dei parte de doente inutilmente. Uma brigada foi
buscar-me ao Aljube à força. Chegado ao tribunal pedi para falar ao
juiz-presidente. Contei-lhe o que tinha acontecido bem como a pressão a que
estávamos submetidos. Foi então que ele pronunciou a frase referida por Mário
Soares no «Portugal Amordaçado»:
- “Senhor Oneto, depois de o ouvir, há uma coisa
que eu peço a Deus para que nunca me aconteça é cair nas mãos da P.I.D.E. como
preso político.” E acrescentou:
- “Quando acabar o julgamento, o senhor há de vir
almoçar comigo para conversarmos.”
Como me parecia de péssimo gosto que o convite fosse para dali a oito anos, conclui obviamente que seria posto em liberdade findo o julgamento. E se eu vinha para a rua, os outros necessariamente também.
Nessa noite houve festa no Aljube.
- Um dos factores que levaram o coronel Rui da Cunha a
tomar o partido dos réus, para além da sua honestidade natural, foi o depoimento
do dr. Eurico Ferreira - homem que muito admiro pelas suas qualidades de
coragem e nobreza. Preso como nós prestou um depoimento sereno, sem exageros
nem emotividade, em que descreveu os processos de investigação da P.I.D.E. e os
célebres «curros» do Aljube, cujas dimensões o juiz-presidente,
impressionadíssimo, mandou averiguar. Confirmou-se: tinham de facto quatro
palmos por oito (os simples) e quatro palmos por dezasseis (os “dubles”).
Semanas
depois foi a leitura da sentença: todos os réus em liberdade. Diz-se que o
Salazar ia tendo uma coisa...
Libertaram-nos
às onze da noite. Em frente do Aljube, fomos festejados por largas dezenas de
familiares e amigos que nos esperavam. A G.N.R. ainda tentou implicar, mas tudo
acabou em bem.
19-02-1975
VIII
– Depoiamento de Eurico Ferreira sobre a luta contra o fascismo
Fernando
Oneto quedou-se, a sorrir, evocando o fim dos dias e das noites vividos na
angústia e na incerteza do futuro. Depois, com aquele ar gaiato que nunca o
abandona, mesmo quando fala de coisas muito sérias, convidou o jornalista:
-
Porque não ouve o dr. Eurico Ferreira? Como lhe disse, o depoimento que fez no
julgamento foi humaníssimo, aliás uma faceta dominante do seu carácter”.
O
jornalista aceitou o desafio, deu a palavra ao dr. Eurico Ferreira.
-
Sou filho de um militante socialista. Meu pai foi membro do Partido Socialista
da Primeira República, começa Eurico Ferreira.
-
Aos 17 anos vim estudar para a Universidade de Lisboa e cedo me convenci que só
por meios conspiratórios o fascismo cairia. Daí que a minha actividade política
tenha sido sempre orientada nesse sentido. Posso afirmar que tive acção, por
vezes importante na maior parte dos movimentos militares posteriores a
1931/323.
-
Vim para Lisboa em 1929 e formei-me em 1934. Quando ocorreu a revolta da
Madeira, já eu e alguns colegas manobrávamos conspirativamente. Nunca recusei a
minha colaboração aos movimentos políticos civis. Fiz sempre parte de
movimentos de unidade que procuravam combater o fascismo em Portugal. No
entanto usei quase sempre esta actividade política para cobrir a minha
actividade conspirativa.
-
Era conhecido em alguns meios militares como pessoa merecedora de toda a
confiança e, por isso, muitas vezes fui escolhido para missões de extrema
gravidade. Assim, em determinada altura, fui solicitado pelo senhor almirante
Quintão Meireles para aliciar um regimento de Lisboa indispensável no xadrez
conspirativo montado. Desempenhei-me da função fazendo parte principal dessa
possível revolução, além do almirante Quintão Meireles, do capitão Henrique
Galvão, com quem contactei quase diariamente durante alguns meses e do qual
guardo a melhor recordação. Algumas vezes me diziam que eu não devia conspirar
com oficiais que tivessem servido o regime em postos de certo relevo. Recusei
sempre esta opinião. Não me esqueço de ouvir o grande António Sérgio dizer que
devíamos aceitar a colaboração de todos aqueles que passassem para o nosso lado
com os dois pés. Assim sucedeu com Henrique Galvão, com Humberto Delgado com o
próprio almirante Quintão Meireles, homens que serviram o regime anterior, mas
que souberam a tempo compreender quanto ele estava a ser prejudicial ao
presente e futuro do Nação.
Preso
no Aljube
-
No movimento conhecido por 15 de Março de 1959, fui encarregue por Jaime
Cortesão, António Sérgio, Azevedo Gomes e outros da parte financeira. Fui preso
porque um oficial do Exército deixou o meu automóvel na parada de Lanceiros 2.
Como o carro estava ainda em meu nome (comprei-o em segunda mão), prenderam a
pessoa cujo nome figurava no livrete. Só tinha um caminho a seguir, fui-me
apresentar à P.I.D.E...
-
A minha absolvição no julgamento deve-se ao facto de sempre ter negado a
autoria do financiamento. A Polícia fizera uma devassa total à minha vida e
apurara que eu não poderia, só por mim, arcar com as despesas do movimento.
Queriam que eu indicasse os nomes das pessoas que estariam detrás de mim. Como
é evidente, eu nunca poderia levar à cadeia homens como Cortesão, Azevedo
Gomes, Sérgio e outros. Mantive-me numa negativa permanente e acabei por ser
absolvido. Os primeiros meses no Aljube foram muito duros porque me puseram num
dos chamados «curros» em total isolamento. O depoimento que fiz no tribunal
impressionou o juiz-presidente de tal modo que, sendo um militar de
extraordinário aprumo, teve a coragem de denunciar e condenar as condições da
vida prisional.
Um
28 de Maio «às avessas»
-
Também tive a honra de ter sido escolhido como primeiro elemento das forças
conspirativas para receber o general Humberto Delgado. Um major, penso que hoje
na reserva, informou-me de que um numeroso grupo de oficiais estavam na
disposição de fazer um novo 28 de Maio «às avessas» (sic). Tinham o seu chefe,
o senhor general Humberto Delgado, à data coronel e nosso adido de aeronáutica
em Nova Yorque.
Pretendia
o senhor coronel Humberto Delgado vir a Portugal para contactar a oposição,
principalmente a oposição clássica e coordenar futuras actividades, não só para
o movimento como também para o pós-vitória, que ele não duvidava alcançar.
Falei, como sempre, com o meu querido e saudoso amigo o mestre António Sérgio e
muitos mais. Imediatamente se puseram todos às ordens do general Humberto
Delgado, que de facto veio a Portugal e a minha casa. Um pormenor interessante:
ele, um dia, esqueceu a sua esferográfica que lhe devolvi na reunião imediata.
Ofereceu-ma e eu guardo-a como uma relíquia.
Apresentei
o senhor general a António Sérgio e ao dr. Teófilo de Carvalho dos Santos. Nos
encontros seguintes, houve total entendimento entre Humberto Delgado e todos os
grandes homens da Oposição desse tempo, em particular Jaime Cortesão, Azevedo
Gomes e António Sérgio, os três grandes mentores, os três grandes líderes de
então, embora outros houvesse, também de grande categoria, como Cunha Leal.
Sucedeu
que esse grupo militar entendeu que o general deveria ser candidato à
Presidência da República. Isso trouxe algumas dificuldades, mas dada a grande
categoria e o grande prestígio dos republicanos que citei, acabou por ser fácil
chegar a um entendimento. Deu-se apenas depois, o aparecimento de Arlindo
Vicente que acabou por se retirar, ficando como único candidato o general
Humberto Delgado.
Fui,
uma vez mais, incumbido pelo General de fazer a ligação com a Escola Prática de
Cavalaria de Santarém, no sentido de hospedar o Presidente da República,
Craveiro Lopes, que estava na disposição de demitir o Presidente do Conselho,
mas desejava ter a certeza de que as forças policiais - e somente policiais -
não intercediam ou sabotariam a sua decisão. Infelizmente, estes
acontecimentos, em que pus as melhores esperanças, não deram os resultados
previstos, apesar de, repito, todos eles serem, de per si, suficientes para
derrubar o fascismo, mas a nossa inabilidade em tirar partido dos trunfos que
tínhamos na mão. Devo esclarecer que essa inabilidade consistia, especialmente,
em não fiscalizarmos, acompanharmos, controlarmos os elementos que connosco colaboravam,
em particular os militares.
O
golpe Craveiro Lopes falhou porque um militar, destacado da Escola Prática de
Cavalaria, para transportar o Presidente da República e outro general, que o
acompanhava a Santarém e de lá serem os sustentáculos militares do plano,
decidiu, à última hora, alterar a missão que lhe fora confiada por todos os
seus camaradas da E.P.C... Ele não traiu, simplesmente pretendeu encaminhar de
maneira diferente a demissão do Presidente do Conselho, e aí, ele falhou.” (O
jornalista acrescenta que esse oficial se dirigiu a casa de Santos Costa,
procurando convencê-lo a aliar-se aos conspiradores. O general tomou
providências - mas para o lado contrário. O oficial em causa foi preso e
deportado).
Nunca
se integraram no fascismo
-
Salazar teve sempre a amabilidade de não dar - ou fingir que não dava -
importância às conspirações militares que, por vezes, abrangiam a quase
totalidade do País. Prendia apenas alguns oficias para minimizar, tanto quanto
possível, a opinião que poderia implantar-se de que as Forças Armadas estavam
contra o regime. Em minha opinião, nunca houve uma integração das Forças
Armadas no sistema político então vigente. Essa é a razão por que,
ciclicamente, se verificaram conspirações militares. O Exército português teve
sempre a nobreza de se afastar do fascismo. Dou o exemplo do general Godinho,
entre muitos nomes extraordinários, na luta dos militares contra o regime. Relembro uma noite em que, junto de Cavalaria
4 em Santarém (à data ainda não era Escola Prática de Cavalaria), esteve o dr.
Carvalho dos Santos, acompanhado por quatro generais fardados, pronto a iniciar
um movimento que também falhou por um pormenor insignificante.
Os militares não falhavam por falta de coragem.
Acontecia, frequentemente que receavam a história do «aprendiz de feiticeiro»:
desencadeavam uma tempestade que não pudessem controlar. Por outro lado, falava-se muito da intervenção espanhola.
Quando
começou a guerra colonial, o capitão Jorge Costa Pereira, homem de grande
experiência, sólida inteligência e com um profundo conhecimento dos meios
político e militar, disse-me, terminantemente: “Será a guerra colonial que
deitará abaixo o fascismo? Os oficiais vão aprender em África, vão buscar, na
sua experiência de guerra, aquilo de que mais precisam, aquilo que unicamente
lhes falta para derrubar o fascismo”. O capitão Costa Pereira faleceu antes do
25 de Abril mas tudo o que me disse saiu certo. Embora eu deva repetir que
sempre confiei nas Forças Armadas, no seu aprumo, na sua inteligência, no seu
patriotismo.
O
25 de Abril comprovou-o, com o apoio do povo que soube sempre em meio século
resistir ao fascismo.
A
ineficiência da P.I.D.E.
- Não constituía, para mim, motivo especial de orgulho
ou de valentia, o facto de exercer estas actividades conspirativas. A Polícia
política atribuía-se uma qualidade que, na verdade, não tinha. Para o
confirmar, bastará o caso de Beja.
A
revolta iniciava-se num regimento daquela cidade, para onde se deslocaram
muitos civis. Verificaram-se, salvo erro, dois adiamentos (pelo menos). E,
apesar da animação insólita nas ruas de Beja, e os adiamentos, a P.I.D.E. nunca
teve conhecimento da revolta.
O senhor general Humberto Delgado estava a um ou dois quilómetros de Beja. Não fora a triste coincidência de o tenente-coronel Calapez ter tido mais sorte que o capitão Varela Gomes, a sublevação teria tido pleno êxito porque serviria de rastilho para um levantamento em cadeia pelo país inteiro. O fortíssimo dispositivo montado pela P.I.D.E. não impediu que Humberto Delgado, malograda a operação, abandonasse Portugal por Barca de Alva. Mais uma vez se demonstrava a completa ineficácia da Polícia.
A
dádiva exemplar de grandes intelectuais
-
Para mim, a resistência do povo português ao fascismo fez-se atrás do
sacrifício de António Sérgio, Azevedo Gomes, Jaime Cortezão, Cunha Leal, João
Soares, Pulido Valente, Norton de Matos, Fernando Fonseca, Alexandre Ferreira e
tantos outros. Eles, com o seu martirológico, é que verdadeiramente encabeçavam
a resistência do povo. Foi atrás deles que o povo sempre organizou e lutou.
Entretanto,
ao passo que estes homens e a maioria do povo português que os acompanhava
apenas pensavam no derrubamento do fascismo, o Partido comunista preocupava-se
mais com a organização dos seus quadros.
Daqui
se parte para outra premissa: se o fascismo tivesse sido derrubado antes de
1961, o contexto nacional seria totalmente diferente daquele que se apresentou
ao País em 25 de Abril de 1974. Se o fascismo tivesse caído antes de 1961, é de
todo evidente que os políticos citados ou outros da geração seguinte, teriam
evitado a guerra colonial e as suas sequelas. Não existiam ainda os grupos
aguerridos da extrema-esquerda, que no meu entender, muito têm perturbado o bom
andamento das circunstâncias em que o 25 de Abril quereria ver encaminhar-se a
vida nacional. Teria sido mais facilmente possível encaminhar Portugal para uma
completa recuperação económica do grande desgaste ocasionado pelo fascismo do
que posteriormente à guerra colonial que durou 13 anos”.
“Hoje
a dez meses do 25 de Abril, já me permito considerar mais notável o papel que
as Forças Armadas estão a desempenhar no esclarecimento cívico, na estruturação
do País, no seu ressurgimento e na sua recuperação do que o próprio movimento.
Isto sem, de maneira nenhuma, minimizar o acto extraordinário do 25 de Abril,
mas considero ainda mais extraordinário, e para mim uma autêntica revelação, a
forma como as Forças Armadas estão a conduzir o País para uma democratização
pluralista, de tipo ocidental, sem hostilizar ninguém, sem cortar a voz a
ninguém, permitindo mesmo aos grupos de extrema-esquerda uma manobra
absolutamente aberta e livre. Sem retirarem a liberdade a ninguém as Forças
Armadas estão a conseguir saltar por cima de todas as dificuldades que vinham
de antes o 25 de Abril e algumas resultantes dos dias que se lhe seguiram.
Estou convencido de que a curto prazo, as Forças Armadas conseguirão
reimplantar neste País um clima de democracia, de boa convivência cívica, de
paz, de ordem, de progresso económico.
20-02-1975
IX
– Segunda prisão: tortura e espancamento
Aqui se reata a conversa com Fernando Oneto:
- O ambiente em Portugal piorava. O povo
agitava-se descontente. Nesse ano deu-se o assalto ao «Santa
Maria», que trouxe novas esperanças aos oposicionistas e levantou celeuma no
estrangeiro, onde os jornais e a rádio se referiram largamente ao
acontecimento. Quase pode dizer-se que, politicamente, Portugal nasceu para o
mundo de hoje por virtude do caso do «Santa Maria».
Lá fora descobria-se que existia no nosso país a mais velha ditadura da Europa.
Está por fazer a história que essa acção teve na política portuguesa.
O grupo do 12 de Março não se desfez. O «veneno»
da conspiração entrara-nos no sangue. Para nós, o Brasil era nos finais da
década de 50, o que Paris veio a ser nos anos 60: aí se fixara o centro de
actividade oposicionista portuguesa. Para lá tinham ido grandes figuras dos
combatentes contra o fascismo: o general Humberto Delgado, o capitão Henrique
Galvão e o Hermínio da Palma Inácio aos quais se juntou o Manuel Serra após a
sua audaciosa evasão do hospital.
Em Lisboa estudávamos o que seria inteligente
realizar. Combinámos que parte de nós ficaria em Paris e que os outros
seguiriam para o Brasil. O Francisco Mateus, o Raul Miguel Marques, o Amândio
da Conceição Silva e um rapaz, não propriamente integrado no grupo, mas que
estivera preso connosco, e o Afonso Costa dos Santos partiriam. Eu, por mal dos
meus pecados, mantinha-me por cá.
Havia dois centros de conspiração em Lisboa: um,
à tarde, junto à porta do café Nicola no Rossio, o outro, à noite, no café
Londres, com a mesma gente, mas sentada (era uma conspiração mais bem
instalada). Em ambos pontificava, o meu queridíssimo amigo capitão Carlos
Vilhena. A certa altura reparei num especto curioso: os coronéis no activo
cumprimentavam-nos de longe e seguiam. Logo que passavam a reserva, vinham
também conspirar, lamentando-se:
- “Se eu tivesse tropas” ...
Retorquia-lhes com a maior franqueza:
- Oh! meu amigo! Diga isso a outro, não tem hoje,
mas tinha ontem!
Chamava a essas tertúlias as «trincheira do
cuspo».
A breve trecho fui informado de que Manuel Serra
conspirava com o general Delgado e o capitão Galvão preparando um desembarque
em Portugal, para assaltar um quartel e a seguir sublevar a região militar a
que a unidade pertencesse. Era o «miolo» do golpe de
Beja, de começo projectado para uma cidade do Norte.
Trabalhavam comigo dois rapazes que me pareciam
diligentes e honestos. Um deles fora recomendado pelo Amândio e pelo Jaime
Conde, como elementos de absoluta confiança na emergência a fim de reconhecerem
a costa, as vias de penetração, os quartéis, as esquadras de Polícia, o
indispensável ao esquema de uma infiltração no interior com o máximo de
segurança possível.
- .... Conspirar é arriscado e sério, mas em
Portugal a maior parte das conspirações tomou feição de comédia…
Sem pormenores, aqueles meus «queridos amigos» foram
presos, dois ou três dias depois de terem chegado ao Algarve e a primeira coisa
que disseram foi que não sabiam de nada e que se tinham limitado a obedecer às
instruções de um senhor chamado Fernando Oneto...
Exactamente no dia em que se completava um ano
sobre o fim do julgamento do 12 de Março (era manhã deitara-me muito tarde,
ainda fazia noitadas nessa época, dormira uma hora, se tanto), aí de casa, na
Rua dos Remédios à Lapa, para o emprego, quando vi uns vultos que se cosiam com
as paredes. Desconfiado, voltei para trás, destruí alguns documentos e tornei a
sair. Fui logo rodeado por sete ou oito agentes da P.I.D.E., que, sem qualquer
explicação me arrastaram com ele se fizeram uma busca em minha casa. Mais de
rotina porque um deles rosnou:
- “O senhor Oneto é um
homem de acção, não é de papeis”.
Fingi à vontade:
- Bem, bem! Vejam se acabam com isto depressa.
E fui preso.
Nove dias e dez noites sem dormir
- Desta vez as coisas passaram-se com muito mais
dureza. A Polícia estava perante uma situação grave porque tinha conhecimento
que o Humberto Delgado, Henrique Galvão, Palma Inácio e Manuel Serra, com
outros, permaneciam no Norte de África. Eram nomes para fazer tremer qualquer
Polícia, quanto mais a nossa P.I.D.E. de «trazer por
casa». Comprovara, também, que a ignorância que os
rapazes do Algarve manifestaram, que a única pessoa que a podia informar era
eu.
Na António Maria Cardoso,
a rotina habitual (tive o «prazer» do meu primeiro
contacto com o «querido amigo» Tinoco, participante em todas as posteriores
investigações relacionadas com as prisões que sofri).
Todavia, decorrera tão pouco tempo desde a prisão
dos dois rapazes que eu não queria acreditar que esse fosse o motivo das
atenções da P.I.D.E. Não é demais esperar que uma pessoa ao ser presa, se
aguente alguns dias sem falar, dando aos outros oportunidade de tomarem as suas
precauções. Chegar à Polícia e prestar declarações imediatamente, origina o que
me sucedeu: saí de casa, pás, saco...
Mas, na secção de fotografia, pude ver os nomes
dos dois «camaradas» do Algarve. Filosofei para comigo: “Oneto, vais levar com
uma «encomenda» de todo o
tamanho, mas a verdade é que os pides não sabem nada.
Fotografado, conduziram-me ao terceiro andar onde
começou o «tratamento»: nove dias e dez noites sem dormir. O Boim Falcão
aparecia para me «animar»:
- “Senhor Oneto! Daqui
só sai de gatas e a lamber o chão... Enquanto não falar não sai”.
A tortura do sono é muito simples. As salas onde
a P.I.D.E. a praticava (na António Maria Cardoso e mais tarde no reduto Sul de
Caxias) eram todas iguais; quatro paredes nuas, uma secretária
rudimentaríssima, duas cadeiras -para o agente e para o preso- e uma grande
ventoinha. Podia-se comer, beber, fumar (até insistiam para que se fumasse).
Quando faltava o tabaco, iam comprar porque ajudava a intoxicar os presos),
estar sentado ou de pé. Só não se podia dormir. Nalguns casos impunham que os
presos se mantivessem de pé, mas abandonaram o sistema, porque se provou que a
chamada «estátua» era menos «rendosa».
Às tantas, perdia-se a noção de estar sentado ou
em pé. Ao quarto ou no quinto dia, vinham as alucinações. No célebre chão do
terceiro andar da António Maria Cardoso, os nós da madeira adquiriam vida,
assemelhavam-se a bichos que mexiam. As pessoas andavam aos saltos para não os
pisar, começavam a ter visões nas paredes. Eu, por exemplo, via filmes de
vaqueiros, grandes cavalgadas... O agente perguntava:
- “Senhor Oneto, está
muito divertido?” porque chegava a rir-me. Autenticamente uma fase de
pré-loucura.
Os agentes revezavam-se de quatro em quatro
horas. Nem sequer sabiam porque é que os presos ali estavam. Apenas tinham de
impedir que os presos dormissem, o que não era difícil; bastava arranhar com a
lapiseira, tamborilar na secretária, fechar uma gaveta, abanar ligeiramente um
ombro e os presos mantinham-se acordados. Perfeitamente diabólico.
As pernas incharam-me de tal maneira (a esquerda
nunca mais ficou boa) que rebentaram as calças e os sapatos.
Á décima noite, atirei-me para o chão. Um médico,
creio que o Maciel Chaves, examinou-me e recolheram-me ao Aljube.
Durante esse período de tortura do sono dormitei
alguns minutos, autorizado por agentes que me conheciam e queriam mostrar-se
simpáticos. Dormir um quarto de hora inutiliza a tortura do sono por um dia.
Em determinada noite, três, quatro horas, o
Amboim Falcão foi (andava sempre em bicos dos pés para aparecer de surpresa) à
sala onde eu estava e quase apanhou o agente a cochilar com a cabeça apoiada
nas mãos. Ouvi a porta abrir-se de dei um pontapé nas canelas do homem por
debaixo da mesa. Ele recompôs-se, o Amboim Falcão não se apercebeu da falta do
agente. Mas estranhou (porque tinha uma grande experiência e sabia quais eram
as reacções dos presos ao longo dos dias e das noites) a minha aparência:
- “Tenho a impressão
de que o senhor Oneto passa pelas brasas. Temos de ver isso”.
E saiu. O agente ficou reconhecidíssimo:
- “... ia já para a
fronteira. Muito obrigado”.
Respondi:
- “Obrigado, nada, agora vou dormir e você fica à
«coca»”.
- “Não pode ser...”
- “Qual não pode ser? Você estava a dormir e eu
salvei-o!”
Deixou-me dormir duas horas. Com estes pequenos
expedientes, ia escapando. Mas à décima noite, não aguentei mais.
Pensava que no Aljube, mesmo no «curro» onde me encerraram, dormiria 24
horas seguidas. Não consegui. O organismo, intoxicado, obrigava-me a urinar de
cinco em cinco minutos. Depois de doze horas nesse martírio, adormeci
profundamente.
Devo acrescentar que a tortura do sono não deixa
marcas visíveis, mas provoca efeitos secundários sobre os quais o professor
Afonso de Albuquerque está a fazer um estudo.
Tratamento de «luxo»
- Dois dias no Aljube e novos interrogatórios na António Maria Cardoso, mais quatro dias e quatro noites
sem dormir. Apertaram comigo, ameaçando-me. Eu tinha uma história para contar,
que não podia ser controlada, desde que o Jaime Conde soubesse da prisão e se
pusesse a salvo. Defendia-me, descarregando responsabilidades sobre ele. Mas
tinha de lhe dar tempo porque andava no mar, de atingir um porto. Quinze dias,
pelo menos.
Nesses quatro dias e noites não falei. Não disse
nada. Foi muito penoso porque ainda não estava recomposto.
Aljube pela segunda vez. Dez horas no «curro»,
depois António Maria Cardoso para ser espancado.
O Tinoco disse-me:
- “O senhor não fala e
isto agora vai piorar. A partir da meia-noite, leva pancada”.
Encolhi os ombros:
- “É com vocês”.
De facto, à meia-noite, entraram na sala quatro
facínoras, que me bateram até às cinco da manhã. Só com as mãos. Sem armas.
Espancamento de «luxo». Se eu fosse, por exemplo, um mineiro de Aljustrel,
atiravam-me com as cadeiras, a mesa, agrediam-me à paulada. Assim, levei só com
as mãos mais para vexar e desmoralizar do que para matar... Às cinco da manhã
foram-se embora e eu continuei na tortura do sono. No dia seguinte, o mesmo
programa. Os quatro chegaram à meia-noite (eram pontuais), bêbados, porque tinham
que beber para fazer aquilo. Bofetadas, pontapés, murros no fígado. Na terceira
noite, nenhuma alteração. Raciocinei: “não vou passar o resto da minha vida a
levar pancada à meia-noite...” Pedi para chamarem o Amboim Falcão porque eu
queria falar.
Sorrisos tipo pasta dentífrica:
- “Está a ver? Sofreu
para quê? Podia ter falado logo. Os senhores têm a mania de que são valentes...”
Chegou o inspector a quem disse:
- “Quem está no segredo da conspiração é o meu
amigo Jaime Conde...”
Não conclui. Assim que pronunciei o nome do Jaime
Conde, levei uma bofetada que me derrubou.
- “Você fala no Jaime
Conde porque sabe que ele fugiu”.
Foi a minha oportunidade «pasta dentífrica»!
Apresentei uma versão verosímil dos acontecimentos e deixei os pides na dúvida.
A táctica que eu seguira era previsível para os
meus amigos. Sabiam que me torturavam e espancavam. Consta sempre.
Para que pudesse desabafar na direcção do Jaime
Conde, a minha mulher enviou-me dois livros, embora não me autorizassem a ler.
No entanto ela sabia que nos «curros» do Aljube existia uma espécie de antecâmara
com cerca de meio metro cada uma, utilizada para guardar os objectos pessoais
dos presos. Os livros eram o “Conde de Abranhos” do Eça e “A Holanda” do
Ramalho Ortigão. Passei por eles dezenas de vezes e não vi Conde... nem
Holanda.
Encontro com o dr. Agostinho Neto
- Emparedaram-me no «curro» n° 1 do Aljube (o
mais pequeno), por três meses e meio. Sem ler. Sem nada.
Para resistir a lutar contra o tempo, socorri-me
de habilidades. Consegui autorização do médico para tomar banho todos os dias,
privilégio extraordinário, porque os presos tomavam banho uma vez por semana. E
o banho, para mim, durava hora e meia, com o guarda a barafustar. Dormia 14
horas diária à custa de sedativos... Apesar do dos quatro palmos por oito,
arranjava-me para efectuar exercícios de ginástica. Quer dizer, disciplinei
rapidamente a minha vida.
Ao fim de deixar no Aljube, sem uma palavra,
durante três meses e meio, a P.I.D.E. lembrou-se de mim. O Tinoco chamou-me e
perguntou:
- “Já quer falar?”
- “Não tenho nada para dizer”.
- “Não tem? Continua
no Aljube”.
- “Continuo lá até seis meses”.
O Tinoco emprestou à ameaça, um acento de bom
humor:
- “Quais seis meses?
Isso acabou! Você vai mas é para o Tarrafal. Não sabe que o Tarrafal foi
reaberto?
Tinha sido, na verdade, mas para os nacionalistas
africanos.
Aquilo soou-me a falso e pensei: “estão a dar
mostras de fraqueza. Não tarda que me ponham em liberdade”.
Mantiveram-me mais dois dias no mesmo «curro».
Houvera grandes incidentes, salvo erro na Marinha Grande. Foram presas muitas
pessoas e os «curros» eram precisos para elas.
Transferiram-me para um quarto da enfermaria,
pequeníssimo. Comparado com o «curro», parecia o
«Ritz». Cama com colchão, lençóis, almofada. Ao fim de três meses e meio a
dormir em cima de uma tábua... de frente do quarto havia casas onde morava
gente. É o pátio do Aljube A minha janela só dava para ver a «fatia» de um
prédio no qual viviam duas raparigas. Uma, pequenita, punha-se à janele e
cantava:
- “Olha o preto da Guiné lava a cara com café”.
Vim a descobrir a razão da cantiga que era o dr. Agostinho Neto, preso no
quarto ao lado do meu.
A segunda rapariga, 16, 17 anos, andava em casa
de calções e uma camisinha, que lhe deixava um palmo de barriga ao léu
(estávamos no Verão). Desesperava-me: “os pides põem ali a miúda de propósito”
...O servente Martins, que também fazia serviço de guarda por falta de pessoal,
abria-me a porta de vez em quando e deixava-me conversar com o dr. Agostinho
Neto, um quarto de hora, dez minutos.
Trocávamos ideias, mormente sobre o problema de
Angola. Depois conheci-o melhor porque tínhamos visitas ao mesmo tempo. A
mulher trazia o filho, um garoto vivo e gentil.
O dr. Agostinho Neto já era formado em Medicina e
fora-lhe fixada residência em São Tomé. A seguir, prenderam-no sem qualquer
acusação, encarcerando-o no Aljube. Tanto assim que tiveram de o libertar.
Julgo que foi então que ele regressou a Angola.
O fim de uma experiência
- Por essa ocasião, estava presa no Aljube muito
boa gente deste país, como Mário Soares, Acácio Gouveia, Ramos Costa e Arlindo
Vicente (ressonava que deitava a cadeia abaixo! Era impressionante!).
Depois, Mário Soares e Acácio Gouveia foram para
Caxias. Estavam presos por causa do Programa para a Democratização da
República, que fora elaborado, sob a presidência de Azevedo Gomes, por Mário
Soares, Ribeiro dos Santos, Ramos da Costa e Piteira Santos. O Salazar acusa a
Oposição, durante trinta anos, de ser derrotista de não ter programa. A
Oposição fez-lhe a vontade e redigiu o programa. Era o que ele queria: meteu-os
a todos na cadeia.
Continuei no Aljube mais três meses. A P.I.D.E.
não conseguia organizar-me o processo e eu era o único que se mantinha preso.
Os outros dois rapazes tinham sido libertados logo ao fim de quinze dias.
Boim Falcão chamou-me:
- “Põe-se a hipótese
de você se ir embora, mas só se escrever uma carta a dar a sua palavra de honra
de que nunca mais se mete em política”.
Respondi-lhe:
- “Vou pensar”.
No Aljube, aconselhei-me com o dr. Agostinho Neto
(o Mário Soares já estava em Caxias) e com uns rapazes do Partido Comunista.
Foram unânimes:
- “Assine o que eles quiserem, porque isso não o
vincula. Lá fora é que você pode fazer qualquer coisa”.
Escrevi uma carta nos seguintes termos:
Exmo. Senhor Director,
Dou a minha palavra de
honra em como nunca mais me meto em coisas políticas.
Fernando Oneto
Quatro dias mais tarde, outra vez o Boim Falcão
que me recebeu com uma cara severíssima:
- “Você anda a
«reinar» com isto... É o que eu digo... Você não leva isto a sério. Pior para
si”.
- “O que é que se passa?”
- “O Senhor escreve
uma carta destas?”
- “Não é o que queriam?”
- “Não! Tem de
escrever uma carta com mais... molho, mais convincente”.
Calei-me uns segundos a pensar e respondi-lhe:
- “Ou essa ou mais nenhuma. Se essa serve muito
bem, se não serve, volto para o Aljube. Faça o que quiser”.
Outros quinze dias antes de ser chamado. O
inspector anunciou:
- “Você vai-se embora,
mas antes o senhor director quer falar consigo”.
O senhor director era então uma figura sinistra,
que se notabilizara pelas atrocidades que cometera no Barreiro, como oficial da
G.N.R. O nome deste «benemérito» coronel Homero de Matos a quem por sinal,
agora depois do 25 de Abril, levou tempo a prendê-lo. Agentes da P.I.D.E., que
não estavam ao serviço há 20 anos, foram para a cadeia logo após o 25 de Abril.
Prenderam e soltaram muita gente e o antecessor de Silva Pais, um autêntico SS,
continuava em liberdade. Cansei-me de o recordar. Percebe-se isto?
O coronel Homero de Matos, de farda número um,
recebeu-me no gabinete que mais tarde foi de Silva Pais e, presentemente, está
a ser ocupado pelo dr. Francisco Caldeira, para me dar uma lição de moral.
Desculpo ao Tinoco a tortura do sono. Desculpo
todos os pides, o que não desculpo é que aquele malandro estivesse três horas a
«impingir-me» uma lição de moral: que eu era muito atirado para a frente, muito
corajoso, mas vítima de indivíduos sem carácter. Apontou o coronel Pastor
Fernandes, um dos dirigentes do 12 de Março, homem aliás notabilíssimo,
honradíssimo, com extraordinário prestígio no Exército, como exemplo de
desonestidade porque, além de militar, tinha outro emprego! Apeteceu-me
estrangulá-lo. Como se, para subsistirem, as pessoas em Portugal não fossem
obrigadas a ter, pelo menos dois empregos. Deu-me conselhos. Deixou-me
completamente fora de mim, mas não abri a boca. Como remate, apontou para a
minha carta pousada na secretária:
- “O senhor dá aqui a
sua palavra de honra de que não volta a ter actividades políticas. Não
acredito, mas vai em liberdade”.
Termina aqui a minha segunda experiência na
P.I.D.E.
21-02-1975
X
- A tortura do sono com o preso deitado
- Casa. Trabalho. Em termos humanos, a prisão, a
tortura, a pancada, não me deixaram marcas.
Sempre refleti muito simplesmente a esse
respeito. Não odeio os pides por dois motivos: um por feitio próprio, por
maneira de ser; o outro por uma questão puramente pragmática. Se eu guardasse
rancor aos pides - ao agente, ao chefe de brigada, ao inspector - que ódio me
ficava para os grandes responsáveis pelos 48 anos de fascismo de que, desde o
25 de Abril, todos falam?
Odeio sim todo o sistema político que permita a
um homem escravizar outro homem. Odeio o sistema, não as pessoas. Algumas são
realmente odiosas, como certos governantes do antigo regime, mas o ódio deve
dirigir-se para o sistema que destrói um país como aconteceu em Portugal. Este
povo foi destruído, a frio, por meia dúzia de bandidos que criaram e puseram em
prática as condições para o aniquilar”.
O jornalista limitara-se a ouvir Fernando Oneto
evocar o seu passado de luta. Fez-lhe a primeira pergunta:
- Não odeia o Tinoco? (Tinoco
é um antigo inspector da P.I.D.E., hoje preso em Caxias).
- Não lhe tenho odio. Ele sabe-o. Não tenho ódio
a nenhum pide. Eles sabem-no.
- No entanto ele torturou-o.
- Foi um dos que me torturou mais.
- E continua a vê-lo como uma pessoa qualquer?
- Olho para os pides como um preso normal, sem
recalque nem prevenções.
Fernando Oneto prosseguiu:
- O meu procedimento, a minha maneira de pensar
não traduzem sequer generosidade. Não são virtudes. São princípios que regulam
a minha vida. Com ódio não se edifica nada. Quem vive com ódio no coração não
faz obra. É impossível. Julgo que é impossível. Por consequência, devemos odiar
os sistemas sem personalizar esse ódio em indivíduos que circunstancialmente
foram levados a fazer o que fizeram.
- Quer dizer que os pides que participaram em
torturas foram meros instrumentos?
- Eles eram pessoas humanas responsáveis.
Praticaram actos contra a mais comezinha moral. Devem ser responsabilizados.
Julgá-los-ão. Mas pode ser feito sem ódio.
Fernando Oneto calou-se a meditar. Depois:
- Os pides são homens que estão presos que
perderam a sua periculosidade. Não têm de ser objecto, nem de ódio nem de
caridade, nem de amor. São pessoas presas que têm direito a um tratamento que
está inscrito na forma cristã da vida nacional. Há que proceder para com eles
correctamente.
- Como se fossem presos de delito comum?
- Não. Não como se fossem presos de delito comum
o que levantaria, inclusive, um problema de natureza moral. Quando alguém tinha
dificuldades de emprego e punha a hipótese de ingressar na P.I.D.E., fazia uma
opção pela qual se responsabilizava. Se tanta gente neste país emigrou, passou
fome, miséria, não aceitando a «solução» P.I.D.E., concorde-se que os pides
tiveram a sua opção pela qual respondem, não no foro do delito comum, mas no
foro de um crime eminentemente político. Concretizando: essas pessoas, só pelo
facto de colaborarem com a P.I.D.E., consumaram um acto político. Para além dos
crimes contemplados no Código Penal - os assassínios, as violações de
correspondência, etc. Está a opção de pertencer à polícia política. Ninguém da
P.I.D.E. podia ignorar que servia, não o País, mas uma fracção, uma clique, a
opressão, a força dirigida contra a maioria dos seus cidadãos.
Retorno ao passado...
- De 1961 até à minha terceira prisão - reata
Fernando Oneto - decorreu bastante tempo. Conspirou-se muito porque nunca
abandonámos a ideia de derrubarmos o fascismo. Uma das conspirações revestiu-se
de certa profundidade e envolveu o marechal Craveiro Lopes. Nela esteve
implicado, como em todas as outras, o capitão Vilhena. Não me livrei de ser
chamado à Polícia para prestar declarações.
Encontro com Palma Inácio
- Conheci e estreitei relações de amizade com
outras figuras da Oposição até que em 1968 houve um acontecimento que modificou
radicalmente a minha vida: Palma Inácio fugiu da prisão no Porto em condições
sensacionais. A P.I.D.E. perdeu a cabeça e a habitual descrição, tendo chegado
a oferecer cinquenta contos a quem indicasse o seu paradeiro.
Ele aparecera, muito cedo, na cena política
portuguesa. Em 1947, numa conspiração de generais, o Palma Inácio, que
pertencia à Aeronáutica, foi encarregue de sabotar os aviões da Base Aérea de
Sintra. Os militares, mais uma vez, recuaram e o Palma Inácio, que cumprira a
parte que lhe competia, foi preso. Evadiu-se de Aljube, também em
circunstâncias rocambolescas, fixando-se no estrangeiro.
Em 1968, a fuga de Palma Inácio da cadeia do
Porto revela as suas qualidades de coragem, de temeridade e uma determinação
invulgar. E, enquanto a Polícia o procurava no Norte, encontrei o Palma Inácio
em Lisboa. Encontrei-o em Lisboa. Encontrei-o, não é bem, foi-me «entregue» por
amigos comuns, para o guardar, proteger e, se possível, fazer sair do País.
Lembro-me de episódios que corroboraram o que afirmei muitas vezes: A P.I.D.E.
era uma Polícia de quinta ordem, que revolvia céus e terra à procura do Palma
Inácio, enquanto ele se mantinha sossegadíssimo em Lisboa. Numa ocasião esteve
um mês seguido em minha casa, embora eu fosse uma pessoa extremamente
referenciada. Para as minhas filhas, era o primo do Porto que se deslocara à
capital em busca de emprego. Foi hospedado por outros amigos, transportando-se
na carrinha do «Villaret» que o Raul Solnado me emprestava.
Fosse como fosse, o Palma Inácio precisava de
sair do País o mais depressa possível, porque, mesmo com uma Polícia de quinta
ordem, a segurança reduz-se com o andar do tampo. Em reuniões para se estudar o
meio de levar o Palma Inácio daqui para fora, nunca se chegava a acordo porque
as soluções sugeridas eram, invariavelmente, tidas por arriscadas. Na última
sessão, a que assisti, em que todos se interrogavam, “mas como é que havemos de
fazer?”, já o Palma Inácio estava em Madrid, por minha iniciativa, sem dizer
nada a ninguém. Se não o tivesse feito, o Palma Inácio ainda hoje estava à
espera.
Eu conhecia uma zona em Campo Maior por onde já
tinha feito sair ou ajudado a sair muita gente, em especial estudantes
comprometidos nas lutas académicas e camaradas do Partido Comunista. Havia um
carreirinho a que nós chamávamos, com a mania das grandezas, o «trilho de Ho
Chi Minh». Certa madrugada, com a minha mulher (para reforçar a naturalidade da
viagem) e o Palma Inácio, viajámos sem sobressaltos para a fronteira do Caia.
Assinalámos, no mapa os itinerários e o local onde Palma Inácio nos esperaria,
no lado espanhol, para o recolhermos e prosseguirmos para Madrid. Dalí ele
seguiria pelos seus próprios recursos.
É preciso não esquecer que o Palma Inácio
constituía uma «carga» valiosíssima!
A minha mulher ficou a tomar café em Elvas e eu
fui pôr o Palma Inácio à entrada do «trilho de Ho Chi Minh», combinando-se que,
uma hora depois nos reencontraríamos em Espanha. Na Fronteira, desembaraçara-me
da Polícia e tratava das formalidades da Alfândega, quando um pide veio a
correr:
- “Alto! O
senhor não pode sair!”
- “Não posso sair porquê?”
- “Tem um mandato de
captura”.
Fiquei transido. Indaguei, insisti e acabei por
esclarecer que o mandato de captura ainda se referia à minha fuga do Tribunal
Militar. Já tinha passado dezenas de vezes pelo aeroporto da Portela, sem
obstáculos, mas nas fronteiras terrestres mantinha-se o mandato de captura.
Argumentei:
- “Homem! Isso é uma estupidez, que não faz
sentido nenhum. Está a ver o meu passaporte? Telefone para Lisboa”.
O pide
concordava:
- “Realmente... Deve
haver engano”
Lembrei-me:
- “O senhor não tem as ordens de serviço da
P.I.D.E.? Procure em Dezembro de 1959. Há-de lá estar que eu fugi e dois dias
depois fui capturado”.
Confirmou-se. Mas o homem estava com medo e tive
de suar para o convencer a deixar-me ir embora.
Cheguei ao ponto aprazado apreensivo pelo atraso.
O Palma Inácio estava sentado na guarda de um aqueduto à nossa espera, uma
chibata na mão, com o aspecto de alguém a apanhar fresco. Não mais interrompi
as ligações com o Palma Inácio. Visitei-o no Natal, em Londres, em casa da irmã
que o auxiliou a fugir do Porto, e fiquei a pertencer à L.U.A.R..
Esta minha intervenção para que Palma Inácio
escapasse fez-se na sequência de uma incursão da L.U.A.R. em que ele chefiava
dois grupos (cerca de 40 homens cada um) que atravessaram a fronteira a Norte e
a Sul. Planeara-se um assalto à Covilhã com o objectivo de isolar a cidade por
um período suficiente para a «limpar» de armas e dinheiro. Simultaneamente,
utilizar-se-ia a antena da Emissora Nacional, explicando-se, ao povo, as razões
do «golpe».
A farsa do «Depoimento»
- Inserem-se nestes actos as eleições de 1969 já
com Marcelo Caetano.
Li no «Depoimento» a descrição que ele faz dessas
eleições, como um modelo de imparcialidade e de liberdade. Quem as viveu como
eu (pertencia à C.E.U.D.) ajudando a organizar a candidatura e ocupando-me de
outros aspectos, não pode ouvir falar de imparcialidade e de liberdade, quando
sofremos as maiores violências da Polícia, nos silenciaram na Imprensa, nos
ergueram barreiras no Governo Civil, nos apreenderam o programa na tipografia.
Quando acabaram as eleições, continuei muito
ligado ao Palma Inácio e a Polícia suspeitou que eu andava a tramar alguma. Não
tinha nada em concreto para me prender, mas utilizou o pretexto de uma
conferência feita pelo então Capitão Melo Antunes na Cooperativa de Estudos e
Documentação, face legal, digamos, da Acção Socialista Portuguesa, com sede na
Av. Duque de Ávila, e da qual eu era membro. Fazíamos conferências e debates,
problemas da vida nacional.
Uma noite, o actual ministro Melo Antunes falou
sobre Juan Boch. Depois do 25 de Abril, descobri, nos arquivos da P.I.D.E., o
«dossier» de um informador, que reproduzia essa conferência na íntegra. O
homem, um sócio da Cooperativa, de quem eu, de resto, já desconfiava, afirma
que não gravou as palavras de Melo Antunes, socorrendo-se, apenas da memória...
A conferência, muito bem feita, levantou
polémica, em que o tom dominante se centrava numa pergunta:
- “Quando é que vocês, oficiais, se decidem? Nós
já desesperamos”.
O Melo Antunes respondia:
- “Calma que lá iremos”.
Fui preso e o Melo Antunes teve «amargos de
boca».
A P.I.D.E. mantivera uma atitude de expectativa
nos primeiros meses do governo de Marcelo, não vendo claramente defendido o seu
estatuto, não sabendo em que paravam as «modas», quase não actuou.
A minha prisão ocorreu precisamente quando a
Polícia reencetou as suas actividades com uma ferocidade raras vezes atingida
no passado.
Recebeu-me o meu «amigo» Tinoco, que colocou a
questão no seguinte pé:
- “Senhor Oneto, para
seu azar ou para o meu, o processo que lhe diz respeito foi-me atribuído. Como
já nos conhecemos, muito pouco temos a dizer. Quando o meu amigo quiser falar,
faça o favor...”
Entrei na tortura do sono e ele foi à sua vida.
A minha mulher e advogados amigos fizeram
exposições no sentido de não me obrigarem a longas horas sem dormir, recordando
que eu tinha a perna esquerda doente devido à tortura do sono.
O Tinoco imaginou, então, outra espécie de
tortura que, estou convencido, é ímpar nos anais da P.I.D.E. No quarto dia,
como as pernas inchassem preocupadamente, mandou pôr uma cama na sala onde eu
fora encerrado.
Não sei se alguém pode imaginar o que é a tortura
do sono, deitado, com um agente à cabeceira, que de minuto a minuto nos toca no
ombro. Só. Cada vez que o meu «benemérito» guarda me abanava, sentia uma
autêntica pedrada no coração. Era de endoidecer. Valeu-me um agente muito novo,
modesto no trato, que me deixou dormir uma hora. Reconciliei-me com tudo e
dispus-me a suportar a tortura os dias que eles quisessem.
Felizmente, desta vez, a minha prisão não tinha
grande significado, a acusação era, apenas, de pertencer à Acção Socialista Portuguesa.
A minha ficha da P.I.D.E. inscreve-se esta nota
singular:
«Preso por actividades contra a segurança do Estado. Na busca à sua
residência foram encontrados e apreendidos vários panfletos emanados de uma
organização ilícita denominada Acção Socialista
Portuguesa (A.S.P.), mas não se provou que a ele pertencesse. Solto em
19/9/1970. Os autos ficaram a aguardar produção de provas».
Eu pertencer à A.S.P.,
até a minha mulher a dias estava ao corrente... Ligado ao que, na altura, se
chamou o «grupo Mário Soares» (sendo socialista, perfeitamente definido e
convicto), era uma evidência que fazia parte de uma Acção Socialista. Era
evidente para todos, menos para a P.I.D.E., que ficou a «aguardar
melhor prova».
Tinham-me posto no isolamento em Caxias, quando
morreu o Salazar. Não tive sequer a alegria de estar em liberdade aquando da
sua morte definitiva, a que o levou à cova.
A Guarda Nacional Republicana colocou a bandeira
nacional a meia haste. Como não era domingo, nem feriado, não tive a menor
dúvida: “morreu o «Manolas»”. De tarde, fui chamado
à António Maria Cardoso para declarações. Os agentes estavam de gravata preta.
Logo que o Tinoco chegou, perguntei-lhe:
- “O patrãozinho «bateu a bota» desta vez? Até
que enfim!”
O Tinoco, muito policial (só perdeu esse ar em 26
de Abril) estranhou:
- “Como é que sabe? O
senhor está no isolamento”.
Não procurei palavras:
- “Não me lixe! Em Caxias a bandeira a meia
haste, aqui, a «rapaziada» de gravata preta. Quem morreu? Foi o porteiro do
Ministério?
E o Tinoco, muito compungido, muito oficial:
- “De facto, o senhor
Presidente do Conselho faleceu hoje”.
- “Os meus pêsames!
Alguns agentes meteram-se comigo:
- “Se estivesse lá
fora, havia champagne e whisky, não?”
Não. Não era a morte física do velho que me faria
beber champagne e whisky, mas sim a certeza de estarmos a viver o final do
último acto de um drama em cena havia quase 50 anos. Não demorou muito a
soltarem-me.
22-02-1975
XI
- Ofensiva da L.U.A.R. e prisão de Palma Inácio
-
A L.U.A.R. absorveu-me quase por completo. Planeámos criar no País um clima de
insegurança tal - assaltos à G.N.R., a quarteis, a bancos, roubos de armas,
raptos - que obrigasse os militares a tomar conta da situação.
Estabeleceríamos, a ferro e fogo se preciso, a instabilidade; se tivéssemos
tido êxito, talvez o 25 de Abril tivesse vindo mais cedo.
Desloquei-me
a Paris dezenas de vezes cobrindo-me com alibis profissionais. Mesmo assim era
preciso que tivesse um escritório em França, para justificar tantas viagens. A
P.I.D.E. não entendeu...
De
1971 a 1973, a L.U.A.R., teve crises, que fizeram duvidar da eficiência da sua
organização. Dizia-se que o Palma Inácio estava cansado, que a L.U.A.R. parara.
As pessoas interrogavam-se, desanimadas.
Apenas
eu, em Portugal, estava a par do plano gigantesco do Palma Inácio que ele não
punha em prática por diversos factores, entre os quais a falta de fundos. Por
outro lado, as forças da L.U.A.R. deveriam entrar em Portugal rodeadas da
máxima segurança, o que obrigava a minucioso e demorado trabalho de preparação.
Até que em fins de Outubro de 1973, o Palma Inácio, acompanhado de cinco
correlegionário, veio para Lisboa.
Eu
e o Zé Manuel Riscado fundáramos uma firma fictícia no Porto a fim de, através
dela, alugar um apartamento em Lisboa, na Rua Ferreira Borges, para o Palma
Inácio. Ele disfarçara-se com uma peruca, aliás mal feita (que teve de ser
modificada e aparada), mas estava irreconhecível, tanto que até jantamos em
restaurantes muito frequentados, fizemos reconhecimentos e passeámos sempre com
o maior à-vontade.
Os
rapazes foram alojados na Reboleira, no apartamento de um amigo, a quem avisei:
“Eles tiveram problemas com a Polícia. Se houver azar, você diz, imediatamente,
que fui eu que lhe pedi o apartamento e que não viu motivo para recusar. O que
aconteceu de facto.
Apesar
das medidas de segurança, o Palma Inácio foi preso na manhã de 22 de Novembro
numa tascazinha da Avenida Duque de Ávila. A prisão deu azo a fantasiosíssimas
especulações em Portugal e no estrangeiro. Falou-se em denúncia nas
omnipotência e omnipresença da P.I.D.E., enfim, o costume nestas
circunstâncias.
Vem,
talvez a propósito, referir um fenómeno muito curioso e perfeitamente
elucidativo da má consciência de uns conhecidos e responsáveis senhores que não
perdiam uma oportunidade para criticar acerbamente todos as operações que
corriam mal, bem como as pessoas nelas envolvidas (e que fácil era as coisas
correrem mal, com uma tão grande desproporção de forças!).
Após o 25 de Abril, trabalhando na Comissão de
Extinção da P.I.D.E./D.G.S. apurei a verdade. Cerca de seis meses antes da
prisão do Palma Inácio, a informação da P.I.D.E. detectou uma carta de Paris que
pareceu estranha ao director desse serviço, o inspector Pereira de Carvalho.
Montou-se uma vigilância ao destinatário e, segundo Pereira de Carvalho «aquilo
não estava a dar nada» embora tivessem corrido três meses. O chefe de brigada,
que fazia a vigilância, propôs que não se continuasse. O Pereira de Carvalho
inclinava-se a concordar, mas, com o sétimo ou oitavo sentido do bom polícia
que ele era reconsiderou: - “Não, não larguem o homem”.
Passados
dias, o célebre indivíduo da «gabardine branca» trocou dinheiro num banco e
entregou-o ao rapaz que estava a ser seguido. O indivíduo de gabardine era o
Casimiro, muito conhecido da Polícia que, surpreendentemente, não o
identificou. No entanto os agentes foram no encalço dos dois até à Duque de
Ávila. E aí, telefonaram ao Pereira de Carvalho:
- “Parece que eles vão fazer qualquer coisa.
Prosseguimos na vigilância ou prendemo-los?”
- “Prendam-nos e tragam-nos”.
É
assim que o Palma Inácio cai nas mãos da P.I.D.E...
Encostado à parede, a cabeleira soltou-se e os pides, atónitos:
- “Olha o Palma Inácio!!!...”.
Pode
dizer-se que o Palma Inácio calhou na rifa à P.I.D.E...
Exílio
em Paris
-
Naturalmente, tive de fugir. Com doze minutos de avanço sobre os pides que iam
buscar-me ao escritório. Não escolhi o «trilho Ho Chi Minh», mas outro, próximo
de Vilar Formoso, exactamente por onde entrara o Palma Inácio. Um caminho feito
por medida, directo à estação de Fuentes de Onoro, cinco minutos a pé.
O
José Manuel Riscado estava à minha espera na Guarda e eu queria que ele fosse
comigo para Paris porque estava muito comprometido no assunto do Palma Inácio.
Contudo, abandonar Lisboa seria ruinoso para ele. Por isso, combinámos, no bar
do Hotel de Turismo, como havia de proceder. Com o meu conhecimento da
P.I.D.E., e com a sua cabeça privilegiada, concordámos que se entregaria à
Polícia e desse uma versão dos acontecimentos que lhe diminuísse
responsabilidades, cingindo-se, estritamente à história que forjámos sem se
deixar aterrorizar nem intimidar. Inquietava-me, entretanto da sua
inexperiência porque nunca estivera preso. A despedida, garanti-lhe:
-
“Zé Manel, se fizeres o que te digo, estás preso noventa dias”.
Não
esteve noventa, esteve noventa e um. Saiu, afiançado em duzentos contos.
Em Portugal com o 25 de Abril
-
Cheguei a Paris nos fins de Novembro com o fato do corpo e muito pouco dinheiro
no bolso.
Mário
Soares estava no Brasil e cedeu-me o apartamento que tinha no Boulevard
Garibaldi Paris XV.
A
minha primeira preocupação foi telefonar para casa. Dava notícias à família e
informava a P.I.D.E. (o telefone estava sob escuta; vi depois a transcrição da
conversa no meu processo), procurando que não prendesse mais ninguém por minha
causa. Conhecia Paris como viajante mais ou menos apressado. No exílio, aos 44
anos, com certos hábitos enraizados e uma curta meia-dúzia de tostões, não era
na realidade uma aventura agradável.
Estava
absolutamente disposto a reorganizar a L.U.A.R., a partir do desastre de 22 de
Novembro. Tentaram dissuadir-me, argumentando que a L.U.A.R. era uma
organização dispersa, com metade dos seus membros na clandestinidade. Só o
Palma Inácio - e nem sempre com sucesso - tivera a possibilidade de os reunir e
dar-lhe uma orientação definida e definitiva, mas tentei e alguma coisa
consegui.
Para
subsistir, empreguei-me numa recém-inaugurada Livraria Portuguesa, onde dormia
e encetei um trabalho de traduções.
Com
algum dinheiro que os amigos me enviavam de Portugal, vivia modestamente, mas
sem privações humilhantes. Seguira um curso de língua francesa na Alliance
Française, via muito cinema e já tinha uma pequena tertúlia, à noite, no Café
do Luxemburgo.
Mudei-me
para casa de um amigo e, por influência da minha mulher que fora passar uns
tempos comigo, pensei em alugar o meu próprio apartamento, muito embora tivesse
a certeza de que a «coisa» em Portugal estava por
pouco. A fim de ganhar para a renda, aceitei um lugar no
«Mercado das Pulgas» como vendedor de fatos usados aos sábados e domingos, 120
francos por dia. Era bem bom! Entraria ao serviço no dia 27 de Abril.
Entretanto a 25... “Há, em Paris, no «Marché aux Puces», um grego, um argelino
ou, talvez mesmo um português que nunca saberá que deve o seu lugar de vendedor
de fatos usados ao senhor brigadeiro Otelo....
Viagem de regresso
- 25 de Abril, regresso a Portugal no mesmo comboio em
que vinha Mário Soares. Os dois tínhamos combinado que não ficaríamos em Paris,
nem mais um minuto. Se a fronteira estivesse fechada, entraríamos pelo
carreirinho de Fuentes del Onoro. Vieram também Maria de Jesus Barroso, Manuel
Tito de Morais e a mulher.
Estava de tal maneira excitado que resolvi tomar um
sedativo. Adormeci e, a meio do sono, comecei a ouvir o «slogan» que, de tanto
repetido depois, se banalizou. Era a primeira vez que o ouvia: “O povo unido
jamais será vencido”.
Um oficial dirigiu-se a mim e, em sentido, disse-me
- “Venho apresentar a V. Excelência os cumprimentos do
comandante da Região Militar”.
Abracei-me a ele, a chorar, a chorar, a chorar....
25-02-1975
XII- Um Jovem de 19 Anos na Luta Antifascista
Ao princípio da noite, na
véspera de Natal, Fernando Oneto pediu-me:
- Quero ir visitar um
amigo hospitalizado na Cruz Vermelha. Estou sem carro, você leva-me?
O amigo era o dr. Amândio
Conceição Silva, actual chefe de Gabinete do Secretário de Estado da Emigração
e veterano na luta contra o fascismo.
O quarto estava cheio de
companheiros: Palma Inácio e Raul Miguel Marques entre outros. Corredor fora, à
saída, Fernando Oneto comentou:
- “É mais um que você
deveria ouvir”.
Foi o que fiz tempos
depois. O Amândio (como ele diz quando fala de si) era um menino de 19 anos
quando se «meteu» em política, através da revista “Náutica”, que Manuel Serra
dirigia e pela mão de Jaime Conde. Escrevia contos. Mas dos contactos havidos e
por «virtude das qualidades de aliciamento de Manuel Serra (que já naquela
altura se faziam sentir) formou-se um pequeno grupo que se desenvolveu», e
lembra:
- Após as eleições de
1958, perante os resultados e o embuste do seu processo, nasceu a ideia de nos
organizarmos para derrubar, pela força, o regime constituído. Nessa
oportunidade, conheci uma série de camaradas como o Fernando Oneto, o Francisco
Mateus, o Raul Miguel Marques, os irmãos Horácio, além do Jaime Conde, meu
companheiro do dia-a-dia. Sob a orientação de Manuel Serra, e também do notável
capitão Vilhena, que apesar das perseguições sofridas, nunca perdeu o norte do
«reviralho», preparámos o movimento que veio a ser conhecido pelo 12 de Março.
Acentua:
- Segundo perspectivas de
agora, deve ter sido a tentativa mais importante e que esteve mais próxima de
surtir efeito para a queda da ditadura.
Ainda com amargura:
- Na última reunião da
Sé, na madrugada de 11 para 12 de Março, cerca da uma hora, o major Pastor
Fernandes e outro oficial, salvo erro, o capitão Alvarenga, vieram anunciar-nos
a impossibilidade de levar a operação por diante. Tinham surgido dificuldades
nos contactos militares, algumas desistências, hesitações. O choque foi muito
grande. Eu era profundamente ingénuo, não só em termos de vida, mas também de
política. Dedicara meses a uma luta mais ou menos idealista que considerava
justa, embora não tivesse uma consciência mais nítida que não fosse o desejo de
substituir aquilo que não servia. Naquela noite, criei, psicologicamente, uma
barreira em relação a militares. Quer dizer: enquanto eu, como civil e como
menino, fora responsável pela organização de um grupo razoável que na hora
certa estava nos seus lugares, não me confortei com a impossibilidade de que
nos era trazida pelos militares que, em princípio, tinham todos os meios
enquanto nós só tínhamos vontade.
Adiada a operação, o
Amândio e o Jaime Conde dividiram-se na responsabilidade de avisar os grupos
espalhados na cidade e arredores. Os locais de encontro eram leitarias e o
sinal de reconhecimento fazia-se com a leitura ostensiva do jornal «Novidades».
Ao Amândio cabia a zona da Amadora, com mais de duzentas unidades constituídas
por operários. Num desses estabelecimentos, um dos homens cujo rosto não vou
esquecer nunca, agarrou-me no pulso com força, a mão feita uma tenaz,
entreabriu o casaco, mostrou-me um facão e disse:
- “Vamos de qualquer
maneira!”.
Não tinha que responder
àquele homem de meia-idade que sofrera o suficiente para entender que não era
possível esperar mais tempo. E que era preciso tentar, nem que fosse à faca.
Essa imagem ficou-me como o símbolo da vontade de acabar com a ditadura. Deu-me
coragem para todo a minha acção futura. Na verdade, tão espantosa determinação
só podia fundamentar-se na profunda injustiça de um regime político que levava
um homem a querer derrubá-lo, nem que fosse à faca...
Vêm as recordações da
prisão:
- O simples facto de ter
estado ligado a um grupo central, apesar da minha menor influência na acção e
do desconhecimento geral da manobra implicou que, a certa altura, apenas
ficássemos detidos cinco além do Manuel Serra, que nunca esteve connosco: o
Fernando Oneto, o Raul Miguel Marques o Francisco Mateus, o Jaime Conde e eu.
Segundo o critério da
P.I.D.E., éramos os mais perigosos, que não podíamos esperar o julgamento em
liberdade. O Fernando Oneto afirmava que o Chico Mateus e eu estávamos ali
presos por «tabela». De facto, o Francisco Mateus, por amizade ao Oneto,
limitara-se a fazer umas viagens, a transportar umas pessoas, mais sabia menos
que eu.
- Uma lição duramente
aprendida: As noites sem dormir, os interrogatórios intensos, a vida num
«buraco» («curro») do Aljube, impressionaram-me e chocaram-me. No entanto não
me queixo. Não que tivesse tido privilégios, mas com 19 anos, o que aprendi na
cadeia, o que ganhei como justificação dos meus actos, transformou o menino no
homem que saiu em liberdade, dois anos depois. Conquistei maior substância
política nas intermináveis conversas no convívio dos dias e das noites. O meu
gesto fora puramente intuitivo: aquilo não estava bem... tinha 19 anos, estava
no 3° ano de Direito, seria advogado dentro de pouco tempo, mas aquilo não
estava bem, muito embora o meu pai me oferecesse quanto desejaria um garoto da
minha idade. A prisão amadureceu-me num quotidiano tecido entre companheiros de
características diferentes. Determinadas figuras influenciaram-me bastante... O
Fernando Oneto, pelo seu espírito tremendamente irreverente e por uma série de
factores, foi como que um mentor dos cinco. O seu poder de persuasão, a audácia
das suas reivindicações, a sua revolta, ajudavam-nos a suportar a incerteza da
nossa sorte. Lembro-me de ele nos dizer:
- “Mas eu já estou preso!
Pior do que isto não me vai suceder. Então, se reclamar...”.
Entretanto ele sofria
muitíssimo. Em algumas noites deixava-nos apavorados com os gritos que dava. Só
conseguimos que se calasse, batendo-lhe, com almofadas, com sapatos de longe
porque temíamos aproximar-nos dele nessas ocasiões. Na realidade era insuportável
ouvi-lo. Ficávamos numa ansiedade terrível.
Para se darem ânimo,
faziam «partidas» uns aos outros. O Oneto e o Marques eram quase sempre os
autores e o Amândio caía como um patinho. Nem por isso me sentia diminuído
porque descobria o lado positivo de tais brincadeiras.
- A prisão para mim foi
melhor do que se tivesse prestado serviço militar.
«Chumbado» por represália
A personalidade do
idealista, do meio-homem que prezava a honestidade e a justiça, ressaltou no
julgamento.
Não negou os factos,
procurando fugir à condenação:
- Talvez com um modo de
ser um tanto quixotesco porque seria mais importante vir para a rua e recomeçar
a luta a fim de modificar uma coisa que estava errada. Mas eu não tinha um
espírito pragmático naquela altura. Agradavam-me as posições claras, bem claras.
Fiquei de bem com a minha consciência ao afirmar, no meu depoimento no
Tribunal, que era preciso afastar do Governo pessoas que não serviam.
O dr. Amândio comenta:
- Quinze anos depois, o
25 de Abril veio mostrar que estávamos certos. Era exatamente aquilo que tinha
de ser feito. Houve, a mais, o sofrimento do povo português, e uma guerra
colonial que nos dizimou e nos afastou do Mundo mais do que já estávamos então.
Se o 12 de Março tem
acontecido, com todas as suas indefinições ideológicas, com todas as suas
estruturas não preparadas para substituir o que se iria destruir, acredito que
ganharíamos 15 anos muito importantes para Portugal.
A experiência foi
decisiva para o Amândio e os primeiros reflexos não demoraram a revelar-se:
- Como estudante de
Direito, senti imediatamente o peso de ter tomado uma posição política.
Quem com 19 anos chega ao
3° ano de Direito, mesmo não sendo brilhante, não pode ser um mau aluno.
Todavia, quando regressei à Faculdade, apercebi-me de que não passava em mais
nenhum exame. Os meus professores eram o Marcelo Caetano, o Galvão Teles, o Martinez,
o Silva Cunha... compreendi que estava tolhido. Não esperava notas muito altas,
mas, atendendo ao que eu sabia das matérias, o simples 10 para que pudesse
passar. Mas não, nem isso. Não me confrangi, nem fiquei abalado por esse tipo
de perseguição. Fortalecera-me na prisão onde assisti a clamorosas injustiças
(aqueles que eram catalogados como comunistas sofriam horrores).
Como primeira
consequência dos longos meses de cadeia, Amândio empregou-se, apesar dos
argumentos do pai para o dissuadir. Queria mudar de vida e continuar a luta
trabalhando e estudando. O 12 de Março falhara. Talvez outro movimento mais
forte e mais bem organizado vencesse. Os «chumbos» nos exames confirmaram-lhe a
convicção de que não podia parar.
- Não me atingia a
perseguição pessoal. Até a admitia, mas ela reforçava a ideia de que esta
sociedade precisava de ser transformada, violentamente se necessário”.
O caso do «Santa Maria»
persuadiu-o de que no Brasil se reuniam as pessoas e as condições para o fazer.
Estavam lá o general Humberto Delgado, o capitão Henrique Galvão, o Manuel
Serra. Para mais, a P.I.D.E., como de costume, à cautela, prendera muita gente.
O Amândio, com o jeito meio brasileiro que tem de falar, conta:
- “Não estava disposto a
ser preso outra vez de graça. A primeira fora, de facto, praticamente de
graça... aliava-se a sensação de que se fosse preso de novo, com motivos ou
não, eles iam-nos escavacar. Aliás foi o que aconteceu ao Fernando Oneto, que,
da primeira vez, tomara todas aquelas posições irreverentes e não levara,
sequer, uma estalada e da segunda foi espancado. Isso aconteceria com qualquer
um do nosso grupo, porque a P.I.D.E., no fundo, não se conformara com o
tratamento que tivéramos. Fora um tratamento político derivado do conhecimento
de que algumas figuras do regime estariam indirectamente envolvidas no 12 de
Março. A Polícia ficara, portanto, inibida porque seria trágico, para a
estabilidade do Governo, aparecer este ou aquele nome. Agora, fatalmente, iriam
dizer que o Partido Comunista nos manipulava para justificar pancada em cima de
pancada. E ninguém gosta de apanhar de graça”.
Definitivamente, o
Amândio teria de viajar. Conversou com o Raul Miguel Marques, convencendo-o de
que seria uma «tremenda besteira» não abandonar o País. Aconselharam-se com os
drs. Mário Soares e Eurico Ferreira, além de outros.
E, um dia,
apresentaram-se os dois no Consulado do Brasil como jornalistas. Já dentro, o
Amândio avisou:
- “Não somos jornalistas,
vimos pedir asilo político”.
Para surpresa deles, o
secretário que os recebeu comentou:
- “O que nos admirava é
que ainda não tivesse aparecido ninguém!”
Atendendo às relações do
dr. Juscelino Kubitschek com o Governo português, tomaram o cuidado de pedir
asilo no dia no dia em que o dr. Jânio Quadros assumiu a presidência do Brasil.
Tudo indicava que o Itamarati modificaria a sua política em relação a Portugal,
isto é, seria muito mais favorável à Oposição de que anteriormente, o que se
provou à saciedade.
Negrão de Lima
recebeu-nos e, depois, recebeu mais quatro: Afonso Costa (que estivera com os
cinco no 12 de Março, no Aljube), Francisco Mateus, José Manuel (um rapaz
angolano) e outro cujo nome o Amândio não recorda.
Concedido o asilo, o
Amândio falou com a noiva a quem namorava há quatro anos. Não gostaria de
partir para o Brasil sem se casar com ela. O casamento foi por procuração. O
Amândio foi representado pelo pai. Negrão de Lima, extremamente simpático,
ofereceu, na Embaixada, um «porto de honra». O Amândio, que ignorava o convite
do embaixador, apareceu de camisa desportiva e em chinelos...
Mas, - perguntava-se, no
limiar da aventura - o que iria encontrar no Brasil, o que poderia prosseguir
de lá, na luta antifascista, anti ditadura, anti-Salazar, anti-P.I.D.E.?
Exílio no Brasil
Chegada ao Brasil e
primeiras desilusões...
- O Manuel Serra deu-nos
a panorâmica das relações entre Humberto Delgado e Henrique Galvão. Ele conhece
muito bem os meandros do que foram os bastidores da luta da Oposição portuguesa
no Brasil. Também fui, durante um certo tempo, «pivot» dessa situação em que os
portugueses, mais uma vez, quando todas as uniões e toda a fraternidade seriam
armas fundamentais para derrubar o fascismo no nosso País (e eu sentia-o,
apesar de garoto com os meus 22 anos), se dividiam numa rivalidade
absolutamente destruidora entre Henrique Galvão e Humberto Delgado.
Personalidades diferentes, não vamos discutir a formação democrática de um e do
outro que, é evidente, não possuíam. Mas, por circunstâncias históricas, tinham
ficado numa posição anti-salazarista.
Acrescentarei, numa
opinião meramente pessoal, que, se o capitão Henrique Galvão revelava uma
estatura política mais aperfeiçoada do que o general Humberto Delgado, este
era, sem dúvida, bastante superior no desassombro das suas posições. Era uma
pessoa em quem, em princípio, se podia confiar mais.
Humberto Delgado era
impulsivo, trovejador... Se o general diz, se o general fala, é porque é
verdade e as pessoas... Esse foi, desde sempre, um dos nossos males: poucos
tiveram a capacidade de se mostrarem independentes perante os chefes. Sempre
houve uma corte de aduladores, de seguidores meio obscuros - meio ignorantes -
e sempre meio aproveitadores. Eu, apesar de garoto, não entrava nessa linha.
Invariavelmente, tratava Humberto Delgado por general. Jamais lhe chamei
presidente eleito, como o faziam muitos outros. De tal modo que uma vez o
general falou com o Serra: “Esse Amândio é de confiança? Ele é um bocado
irreverente, Manuel. Só me chamo general...” e o Serra tranquilizando-o: “Ele é
de confiança, sim. Isso é jeito dele; É a maneira de ele ser”.
Tive momentos de
desânimo, porque verificava as consequências demolidoras das dúvidas e dos
desentendimentos nas acções que pretendêssemos efectuar. Mas enfim, quando a
gente está no barco, vai... E eu continuava a ser Quixote.
Delgado e Galvão
Breve regresso a Lisboa:
- No dia em que eu e o
Raul Marques nos despediríamos dos companheiros (no escritório do Eurico
Ferreira ou do Acácio Gouveia, não estou certo), prometêramos: “Dentro de seis
meses estamos de volta”. Errámos por muito pouco porque saímos em Abril e Beja aconteceu
oito meses depois. E dois meses depois chegávamos a Marrocos. Não havia nada
que justificasse a nossa promessa, salvo o convencimento de que, no Brasil,
havia a «organização». Portanto, quantas mais
pessoas fossem para lá, mais depressa alcançaríamos os nossos objectivos. Mas
não havia «organização». Havia «desorganização».
É sintomático que o grupo
de Marrocos tivesse de utilizar um «bluff» de que Humberto Delgado e Henrique
Galvão foram «vítimas». Responsabilidade assumida pelo Manuel Serra (do ponto
de vista revolucionário tenho de estar com ele) e compartilhada por nós: por um
lado, convencemos o primeiro que constituíamos um grupo militar que estava
somente com ele e que todas as acções que empreendêssemos o seriam em nome de
Sua Excelência o general Humberto Delgado e por outro lado dissemos o mesmo ao
segundo, que também fizera deslocar para Marrocos o seu grupo de que faziam
parte o nosso Camilo Mortágua e o próprio Palma Inácio. Mais tarde nos
juntaríamos todos. Foi convencendo-os de que o grupo era exclusivo de cada um,
que conseguimos congregar forças e reunir o dinheiro que apoiavam um e outro.
Foi desse modo que se pode arrancar com uma equipa de dez ou doze pessoas do
Brasil para Marrocos com toda a sorte de loucuras em termos de prudência, com a
raiva de Henrique Galvão quando descobriu que fora enganado. Por uma questão de
pura vaidade pessoal, fez publicar num jornal do Rio de Janeiro, a «Última
Hora», uma notícia a anunciar a sua partida para o Norte de África, a fim de
comandar um grupo de rebeldes, numa nova acção contra o Governo português.
Lamentavelmente, é a realidade. É a História. Foi o que aconteceu.
Ninguém pretende tirar
méritos a qualquer deles nem lhes regatear homenagens naquilo em que as
merecem. Foram importantes. Quiseram acções revolucionárias. Contribuíram
decisivamente para levantar o problema português perante o Mundo. No entanto,
eram diferentes da imagem que poderão ter deixado ao povo.
Uma análise psicológica dos dois homens, feita no contexto actual da vida portuguesa e colhida através de depoimentos que existem poderão justificar, segundo o Amândio, muitos dos seus actos, o comportamento que evidenciaram frequentemente”.
A caminho de Marrocos
Amândio confirmou a
orientação e a visão de Manuel Serra em perspectivas de golpe de Estado. Mais
uma vez, ele procurou trabalhar em conjunto com os militares, chefiados por
Varela Gomes e Pedrosa Marques. Uma tentativa mais espectacular por ter chegado
a haver luta, mas talvez menos importante do que o 12 de Março em virtude de
condicionalismos que a comprometeram. Antes, porém, a viagem para Marrocos,
passando por França:
- O Manuel Serra foi o
primeiro a partir seguido do Raul Marques. Em terceiro lugar eu, mantendo até
ao fim a duplicidade em relação aos dois chefes”.
Mais um exemplo das
imprudências cometidas: a escala do avião no Rio de Janeiro deveria ser
aproveitada para fornecer armas ao Amândio (duas «Parabellum» e munições). A pessoa encarregada de lhas entregar
chamou-o pelos altifalantes do aeroporto, indicando a sua verdadeira
identificação embora ele viajasse de São Paulo com passaporte falso!”.
Em Paris, Manuel Serra e
Raul Marques aguardavam-no. Na passagem pela alfândega teve de fazer «braço de
ferro» para esconder as armas com o sobretudo. O peso excessivo quase o fez
cair.
Pelo «Le Monde», souberam da prisão de Fernando Oneto e de
outros.
Jaime Conde, oficial da
Marinha Mercante e elo entre os conspiradores navegava, naquela altura, do
Norte de África para a Holanda. Tornava-se urgente avisá-lo… “se não, assim que
chegasse a Lisboa, ia de «cana» também.
Manuel Serra, Raul
Marques e o Amândio foram a Amesterdão decidindo-se, ao cabo de algumas
hesitações, que Jaime Conde abandonasse o navio e pedisse asilo político a uma
embaixada da América Latina o que seria muito mais seguro do que apresentar-se
às autoridades holandesas. Enquanto Manuel Serra e Raul Marques voltavam a
Paris, o Amândio ficava na Holanda a fim de ajudar o Jaime Conde.
Dissimulando-se nas
sombras do cais, o Amândio esperou uma noite interminável, enregelado pelo
frio. Jaime Conde teria que descer por uma escada de corda em cerca de meio
minuto, o tempo em que a ronda do navio não estava à vista. O Amândio ri-se ao
recordar: “Como ele é um fulano cuidadoso, metódico e cheio de coca-bichinhos,
além da roupa e objetos de uso pessoal, levou livros. Trinta kilos de livros…
convencido que iria ficar um tempão na Holanda, tratou de levar «alguma coisa»
para ler….
Avisei a France Press e a
Reuter de que um cidadão português pedira asilo na embaixada da Colômbia.
Jaime Conde manteve-se na
Holanda, primeiro ao abrigo do Comité dos Refugiados, que lhe dava alimentação
em troca de trabalho e, a seguir, em casa de uma família holandesa. Oito meses
volvidos, foi para o Brasil vivendo quase oito anos em casa do Amândio, até
casar.
A seguir: Pioneiros
(pacíficos) da pirataria aérea
26-02-1975
XIII – O avião da TAP a lançar manifestos sobre Lisboa
O dr. Amândio Silva que viera para o Norte de África a
fim de participar em mais um movimento revolucionário contra o regime anterior
ao 25 de Abril, prossegue a sua narração.
- Marrocos…
Em consequência das inconfidências derivadas dos
orgulhos pessoais, estávamos obviamente custodiados por uma série de pides. Com
tantas notícias, era evidente que os fulanos não iam ficar quietos.
Quando Henrique Galvão chegou, o Manuel Serra decidiu
ir de Tânger a Casablanca conversar com ele para lhe explicar as razões que nos
levaram a usar do subterfúgio que referi. A meio do caminho, em Alcácer Quibir
fatídico para os portugueses…), o automóvel teve um despiste. No desastre, fui
o mais ferido com o couro cabeludo quase arrancado, tendo perdido muito sangue.
Fiquei quase um mês no hospital. O Manuel Serra recebeu alta ao fim de dois ou
três dias. O Raul Marques escapou ileso.
Fomos, por isso, obrigados a alterar os planos que
elaboráramos. Quem deveria entrar clandestinamente em Portugal, para
complementar a operação do avião (que anunciaria a tentativa revolucionária),
seríamos nós os três. Assim, troquei com o José Paulo da Silva Graça.
Integrei-me no grupo que assaltaria o avião da TAP. Estabeleci um contacto mais
íntimo com o Camilo Mortágua que fizera parte da operação «Santa Maria» e com o
Palma Inácio, cuja larga experiência lhe conferia, naturalmente, o lugar de
chefe. Logo que recebêssemos «luz verde» de Lisboa, tomaríamos conta do avião e
distribuiríamos a sul de Portugal, um panfleto já impresso no Rio de Janeiro - como
que uma cartilha revolucionária, inspirada nos ensinamentos de Che Guevara -
anunciando o próximo movimento. Nesse panfleto, convidava-se o povo a
participar, ensinando a fabricação de «cocktails Molotov», como rebentar um
tanque, dinamitar pontes… em suma, um «trabalhinho» de ajuda. Todavia, Lisboa
informou-nos que, por hora, a acção não podia ser articulada. O costume…
De qualquer modo, se analisarmos os factos num aspecto
técnico, temos de reconhecer que todas essas tentativas se revestiam de uma
dose de loucura, na base do «tem de ser», mas fatalmente destinadas ao
insucesso. Além de sermos sempre os mesmos, muito conhecidos, agíamos em
condições extremamente graves, extremamente heroicas. Arriscávamos o máximo que
podíamos dentro das nossas capacidades”.
Amândio entusiasma-se no relato e denuncia a longa
permanência no Brasil:
- Mas espera aí! Não era possível! Não dava. Não era
meia dúzia de civis, com todo a sua valentia, que alcançaria o êxito sem que
previamente fosse emocionada uma força militar suficiente que nos apoiasse.
O 25 de Abril comprovou-o. Não foi preciso pegar em
armas. O povo intuitivamente veio para a rua dizer: “Estamos com vocês” e isso
teria acontecido em qualquer um dos 15 anos passados, em qualquer das
tentativas que fizemos. Connosco foi diferente. Constituíamos grupos tão
reduzidos que o povo só sabia do que se passava no dia seguinte a terem-se
gorado os movimentos. É fundamental. O povo português nunca teve conhecimento
nem a oportunidade de dizer: “Estamos com vocês”. Quando lha deram, o resultado
está aí. Se com mais ou menos cravos, veremos. Mas estavam lá.
Reatando a história dos acontecimentos em Marrocos:
- O general Humberto Delgado ficou sozinho em
Casablanca, enquanto o capitão Henrique Galvão nos acompanhava em Tânger.
Perante a informação de Lisboa, pôs-se o problema da oportunidade de assaltar o
avião. A operação era perigosa porque estávamos supervigiados: seis polícias
para cada um. Também arriscávamos numa tentativa feita em território
marroquino.
Reunimos e debatemos as soluções possíveis. Henrique
Galvão, Palma Inácio, Camilo Mortágua, eu, Fernando Vasconcelos e a mulher, a
Maria Helena. O casal chegara a Marrocos fugido de Portugal num pequeno barco à
vela e fora apanhado, em pleno Mediterrâneo, por um navio da Nigéria, quando
estava quase a naufragar.
O assalto ao avião já não se justificava como elemento
dinamizador ou motivador de uma revolução porque ela não se fazia. Na
emergência, a acção só poderia ser dispersiva, quanto muito, publicitária, mas
não tinha um fundo político. Palma Inácio, eu e creio que o Camilo, votámos
contra. Os restantes, entre os quais o capitão Henrique Galvão (cioso da
publicidade que, efectivamente, houve), entenderam que se devia prosseguir.
Democraticamente, submetemo-nos e lá estivemos na hora certa.
O panfleto do Rio não fazia sentido. O capitão
Henrique Galvão redigiu outro, cujo final me obrigou a dizer-lhe para assinar o
texto porque eu não concordava com ele. O final do texto parecia-me inexato e
inoportuno, como apreciação do momento político português. Sem com isto negar a
grande inteligência e os méritos do capitão Henrique Galvão, mas era um homem
com uma estrutura de direita. O segundo panfleto demonstra-o como tudo o mais
que ele fez… Entretanto, profundo anti-salazarista, levava-nos a vantagem de
conhecer muito bem o ditador e de saber como o ferir, como o atacar, como
abalar o prestígio. É indiscutível: poucas pessoas o souberam fazer como ele.
Mandámos imprimir cem mil exemplares e tratámos dos
últimos pormenores”.
Panfletos sobre o País
Divertido, o Amândio recorda aquelas horas vividas num
nervosismo fácil de calcular:
- Como disse, havia «montanhas»
de pides à nossa volta. Para os iludir, intensificámos uma actividade constante
no porto de Tânger. Os Vasconcelos, no seu barquinho, escondiam-se atrás dos
navios ancorados, sugerindo que procuravam contratar transporte para mais uma
operação marítima. A manobra resultou. Há uns meses, falei com um antigo colega
do liceu, o Conde Martins, que nessa época prestava serviço na Marinha de
Guerra. Ele fez parte da tripulação de um navio que foi defender o Algarve da
nossa ofensiva”.
Risonho: - Não sei como é que eles pensavam que nós
íamos. De submarino, talvez… E a verdade é que, ao sobrevoarmos a costa
algarvia, vimos uma quantidade de navios de guerra em missão de patrulha… Os
pides tomavam em atenção qualquer indício, o que, bem explorado, nos permitiria
criar situações verdadeiramente cómicas, induzindo-os a providências descabidas
para coisas que nunca iriam acontecer.
A caminho do aeroporto:
- Portanto, deu certo. Saímos de Tânger à meia-noite,
como se fossemos muito pela calada, mas de modo que eles nos vissem, e
«enfiámos» o carro para Tetuão a fim de mantermos a aparência de que o nosso
objectivo era um porto de mar.
Avançámos em alta velocidade com os pides atrás, mas o
Camilo é, realmente um volante invulgar e deu uns «pontapés» fortes no
acelerador. Antes do cruzamento para Casablanca, apagámos os faróis e fizemos
entre cinco e dez quilómetros às escuras. Estava um lugarzinho mais ou menos,
pusemos a cabeça de fora a ver o que é que dava e afastámo-nos. De madrugada,
chegámos a Casablanca. À cautela, separámo-nos. No meu caso, como de início,
não participava na operação, não levara o passaporte falso. Tinha o meu, com a
minha cara e o meu nome, o que era do arco-da-velha… Amândio Silva, que todo o
mundo sabia estar em Marrocos, entrar num avião português tornava-se altamente
suspeito, mas os pides estavam tão convencidos de que a operação era marítima
que não estabeleceram a mínima vigilância em redor do avião. Nem lhes passou
pela cabeça! Quer dizer: não admitiam nada que fosse mais arrojado, mais na
cara, mais de loucura, que atingíssemos esses parâmetros de ousadia. E foi o
que nos valeu.
Entrámos. A Maria Helena levava as armas numa cinta.
Na véspera, para comprovar que o disfarce era perfeito, desfilara num café onde
se reuniam os pides e nos lançava piadas: “qualquer dia vocês estão na António
Maria Cardoso” e outras desse género. Desfilara com os seis revolveres na
cinta, muito elegante. Não se notava nada. No aeroporto, o Palma, por uma
questão de método, de técnica de actuação, quis levar a arma dele; e onde é que
a pôs? No tornozelo, presa com adesivo. Era uma 32, pequena, levezinha… Mas
esqueceu que em Marrocos existe uma «praga» chamada engraxador. Milhares e
milhares de garotos que engraxam sapatos. Podem ver o sapato mais brilhante do
mundo que insistem em sentar-se na frente do sujeito para lhe polir o calçado.
Com o meu gorro marroquino (para esconder as feridas
na cabeça), muito turista, vi, de longe, o meu amigo Palma chutando os
engraxadores, que na hora de lhe porem a mão, poderiam descobrir a pistola.
Dizia que não e chutava com o pé direito…
A bordo, colocámo-nos estrategicamente e a Maria
Helena deu uma aula de malabarismo; em menos de um minuto distribuiu as armas,
ficando nós a aguardar tranquilamente, porque não sabíamos se tinha pide ou não
tinha pide.
Sobre águas territoriais portuguesas, o Palma, o
Camilo e eu, fomos à cabine dos pilotos. O Palma foi reconhecido pelo
comandante, mas recusou admitir a sua identidade.
Não tivemos problemas de maior; apenas um comissário
se aproximou de mim e disse: "É preciso que se note que estamos agindo sob
pressão das armas”. E eu, que só por acaso empunhava a arma, meti-a no cinto,
abotoei o casaco, perguntando-lhe: “E agora que não estou armado? Não se vai
fazer?” Não entendi essa da “pressão das armas”. Você está querendo criar
alguma dificuldade ou acha que não vai se fazer?”. Ficamos por ali. De resto
foi o único incidente até porque a tripulação tinha de salvaguardar a segurança
dos passageiros, que não se aperceberam de nada, salvo um francês.
Eu fora encarregue de controlar todas as pessoas que
não pertencessem à tripulação e desconfiei de dois sujeitos, que se sentavam lá
ao fundo. Ao grupo constituído pelo Palma, o Camilo, o casal Vasconcelos e por
mim, juntara-se o Martins que viera de Paris. Um gigante de quase dois metros
de altura, bigode à mexicano, e uns olhos verdes que fuzilavam. Só o informámos
do assalto ao avião dez minutos antes de partirmos para Casablanca. Ele
laconicamente assentiria: “OK”.
Desconfiando daqueles dois, disse ao Martins: “Vais
sentar-te no assento ao lado”. Obedeceu sem uma palavra. Sentou-se ao pé dos
homens (os únicos portugueses a bordo além de nós) e levou a viagem inteira a
olhá-los fixamente. Fossem ou não da P.I.D.E., (mais tarde revistámos-lhes a
bagagem sem chegarmos a nenhuma certeza), sentiram-se tão marcados que não se
levantaram nem para fazer chichi. Ficaram o tempo todo sentadinhos, guardados
pelos olhos verdes do Martins”.
Numa transição:
- “É curioso que o Martins, aparentemente tão forte,
revelou a sua fragilidade quando regressámos ao Brasil, não se adaptando ao
ambiente do país, possivelmente difícil para quem não esteja habituado a uma
determinada largueza de horizontes. Sofreu terrivelmente durante dois meses até
que conseguiu ir para Londres, como pintor, ao encontro de um estilo de vida,
na minha opinião, muito mais apertado. Enquanto não logrou regressar à Europa,
não descansou”.
Parêntese fechado:
- “O mecânico de bordo prontificou-se a ir ao porão
buscar aa malas (o seu número deslocara seis pessoas, porque os panfletos
ocupavam muito espaço). Entretanto o Camilo, que tinha passado momentos mais
difíceis no «Santa Maria», saiu da cabine e avisou-me: “Amândio, foi fácil
demais. Vou sentar-me”. Tão tranquilo, tão calmo, adormeceu”.
Sobre Lisboa, o mecânico (o sr. António Coragem) abriu
uma janela na parte traseira do avião e, no Marquês de Pombal, começamos a
distribuir os panfletos em quantidades apreciáveis. Soube depois que o meu pai
circulava na avenida da Liberdade e apanhou um deles.
O comandante Veloso (o co-piloto era filho do marechal
Craveiro Lopes) foi magnifico. Baixou para os cem metros, impressionando os
transeuntes. Alguns panfletos entraram pelas janelas dos Ministérios o que não
deixou de ter a sua graça…
Por seu turno, a hospedeira avisou o aeroporto de que,
por avaria técnica, não aterraríamos, regressando a Marrocos. A desculpa não
«pegou»: dois caças saíram do Ota em nossa perseguição, mas não atuaram.
Lançámos ainda panfletos no Barreiro, em Beja e em
Faro. Voávamos a 400 metros e descíamos para 100 nas localidades. Numa delas, o
mecânico segurou-me a mão e perguntou-me comovido: “Posso deitar também?”
Entreguei-lhe uma quantidade de papéis… A tripulação, cada um à sua maneira,
quis colaborar. É importante sublinhá-lo para mostrar a qualquer português,
desde que lhe dessem oportunidade de lutar contra a ditadura, o fazia de boa
vontade. O filho do Marechal Craveiro Lopes também colaborou.
A chegada a Tânger, onde o capitão Henrique Galvão
preparava as autoridades, não foi muito agradável. Fizemos sair todos os
passageiros, agradecendo-lhes e explicando-lhes o que acontecera, que se dera
mais um passo para a libertação de Portugal, de que tinham sido interpretes
involuntários. Pedimos-lhes desculpas do único inconveniente que tiveram: o
atraso de algumas horas na chegada a Lisboa. Logo que o aparelho fosse
reabastecido, voaria para Portugal.
As próprias hospedeiras, meninas novas,
perguntaram-nos se ainda chegariam a tempo de irem com os noivos, à «matinée»
do Império. Eu disse que sim que não havia dúvida nenhuma, que iriam…”.
Entregamos o avião e as armas às autoridades
marroquinas das quais ficámos à disposição.
Em Lisboa falaram cobras e lagartos de nós, procurando
fazer acreditar que tinha sido um inferno para os passageiros. Mas não foi.
Correu tudo na maior normalidade e acredito que se todos os outros desvios de
aviões (o nosso foi o primeiro no Mundo) tivessem decorrido da mesma maneira,
não haveria reclamações…
Aconteceu em 21 de Novembro de 1961, um mês antes de
Beja.
28-02-1975
DOCUMENTOS
Frente
Antitotalitária Dos Portugueses Livres no Estrangeiro
HOMENS E MULHERES DE PORTUGAL!
ESTUDANTES, JUVENTUDE SEM RUMO!
MILITARES SAIDOS DO POVO E QUE AO POVO PERTECEM!
TRABALHADORES SEM LIBERDADE NEM PÃO!
Portugueses como vós, mas livres que por vós lutam e
tudo arriscam em países verdadeiramente livres, vimos por este meio exprimir o
único voto verdadeiramente livre que a PIDE e a Censura de Salazar não poderão
tiranizar. E só através deste voto as eleições do Estado Novo conhecerão um
momento que não será de fraude nem de violência sobre a dignidade de um povo
inteiro.
Portugueses, nossos irmãos que nem sequer podeis
auscultar o desprestigio a que descemos no mundo e os perigos que ameaçam a
nossa independência! Rasgai as listas que vos distribuem e vos reduzem a
comparsas de mais uma farsa fraudulenta. Votai de outra maneira: protestando
por todos as formas abertas ou clandestinas ao vosso alcance, impedindo o
exercício do acto eleitoral de qualquer maneira, mostrando pela vossa repulsa
que votais assim pela abolição do Estado Novo e destituição do seu tirano. A
PIDE poderá prender e exercer violências sobre 100 ou 1.000 homens, mas será
impotente contra 10.000 que se manifestarem. Tendes uma força de que ainda não
usaste: a força do vosso número e dos vossos direitos traídos e negados.
Salazar dirá que isso é a desordem, difamar-nos-á como de costume, mas ele é
que é a desordem. Alijai das vossas almas o medo de que ele explora nelas para
vos dominar. Fazemos o que podemos e arriscamos tudo o que temos. Se nos
ajudardes mais poderemos fazer. Não nos falta capacidade de acção como se
demonstra. Só nos faltam meios materiais.
Mais um ano com Salazar e será o caos: a miséria
irrecuperável, a independência reduzida ao satelitismo, a economia nacional e
ultramarina esfrangalhada, a desonra nas colónias, o sacrifício da nossa
juventude numa guerra sem fim. Todos os nossos problemas - e também os
ultramarinos em que tantos direitos temos de defender com honra para todas as
partes - poderão ser resolvidos na paz e liberdade e só na paz e liberdade.
Com o vosso auxílio e a consciência da nossa situação
dramática no mundo podemos fazer muito mais. É connosco que está o mundo livre
e não com Salazar.
Votai protestando por todas as formas.
Estamos em guerra contra o Estado Novo e o seu
verdugo.
Ajudai-nos a ganhá-la para vós, só para vós todos os
que sofrem e anseiam por liberdade, saúde, pão, instrução e justiça.
Por nossa parte estamos dispostos a tudo, como tendes
visto.
Ajudai-nos a ir mais além até a vossa libertação. De
outra maneira, será a queda na miséria total ou no comunismo que a espera para
se instalar.
Henrique
Galvão
No anterior artigo da série “Um revolucionário
confessa-se” recordou-se o episodio, que então teve grande repercussão e foi
precursor de outras acções que muitos anos depois se dariam: a tomada de um
avião da TAP que lançou panfletos “subversivos” sobre Portugal. É esse panfleto que acima reproduzimos.
28-02-1975
XIV – A alegria do regresso
O dr. Amândio Conceição Silva vai completar o seu depoimento.
- Em Marrocos, diz-nos, as pressões do governo português
causaram-nos complicações e dissabores. O capitão Galvão nesse transe procedeu
com habilidade e rapidez procurando deixar bem clara a intenção política da
operação explicando os motivos por que se utilizara o território marroquino e
pedindo que se nos desse asilo até regressarmos ao Brasil.
Detiveram-nos numa casa nos arredores de Tânger.
Passamos frio e fome. Só tínhamos comida quando o capitão Galvão podia
providenciar para que alguém levasse.
Acrescento que, nos últimos dois meses antes da
chegada dos dois chefes da Oposição, comíamos apenas uma vez por dia (quando
digo comíamos, falo do Serra do Marques e do Amândio), porque o dinheiro que
trouxéramos do Brasil era muito pouco para tão longa permanência. A propósito
de dinheiro, quero esclarecer um ponto importante. Encarregado das contas do
grupo, fui muito cuidadoso - e ainda bem. Tão cuidadoso que até um simples café
ou a compra de tabaco documentei.
No regresso do Brasil os amigos do general Delgado
pediram-me contas da verba entregue ao Serra (e repare-se que o Serra e o
Marques não estavam comigo; o primeiro fora preso e o segundo estava exilado na
Embaixada da Argentina, ambos em Lisboa). Felizmente os documentos estavam na
minha mão. Pude comprovar exaustivamente todas as despesas de modo a calar a
boca a quem quer que tivesse ideias reservadas.
Em desabafo:
- Sempre houve esses aproveitadores que davam dinheiro
na mira de futuras vantagens, mas na realidade quem arriscou a vida fomos nós.
Não tínhamos dinheiro, mas tínhamos coragem e a convicção do que tínhamos que
fazer.
Tentaram provar (creio que Humberto Delgado embarcou
na mesma canoa) que fomos delapidadores, mas mostrei-lhes, centavo a centavo,
como gastara o dinheiro. Mostrei naquela altura e posso mostrar agora porque
guardei fotocopias.
Estamos no estrangeiro e queríamos voltar à nossa
terra para fazer alguma coisa, mas isso não conta para um determinado tipo de
indivíduos que pensavam em termos de investirem para receberem dividendos. Não
foi assim. Os dividendos chegaram agora, 15 anos depois. Muitos outros no
Brasil se sentiram recompensados ao fim de tantos anos pelo 25 de Abril. Vi
chorar gente de 60, de 70 anos que nunca pusera os pés na Embaixada de Portugal
e que foi à festa que nós organizamos no dia 10 de Junho. Fomos nós que conseguimos
que se comemorasse decentemente aquela data no Rio de Janeiro. Mais de 800
pessoas cumprimentaram o general Galvão de Melo e o major Victor Alves ao som
do “Grândola”. Apareceram também alguns “penetras” que vão em todas as
circunstâncias, mas poucos. A esmagadora maioria estava sinceramente comovida.
Atitude corajosa (mais uma) de Álvaro Lins
Ainda em Marrocos, os seis entraram na fase do “joga
daqui, joga dali”. As autoridades quiseram que fossem para Palma de Maiorca.
Responderam que não, que não adiantava insistir porque não iam. E se os
forçassem, “rebentavam com o avião”.
De Tânger para Rabat e, depois Casablanca sempre muito
mal instalados e inseguros: “temos de reconhecer quer o capitão Henrique Galvão
foi persistente, foi leal, foi companheiro diligenciando por suprir as nossas
dificuldades. Em Casablanca juntou-se a nós numa noite em que dormíamos num
saguão. Ao fim de mais de vinte dias, o Governador de Casablanca hospedou-nos
num hotel. Quarenta e oito horas passadas, embarcaram num avião para o Senegal
onde os receberam amistosamente tendo sido convidados para um almoço no
Ministério da Educação Nacional (mau grado os senegaleses considerarem o
capitão Galvão como colonialista).
A viagem para o Brasil tardou, porque as companhias de
aviação não aceitavam a condição de as passagens serem pagas à chegada ao Rio
de Janeiro. No entanto, o Governo do Senegal interferiu e a Air France
transportou-os.
A palavra do Amândio:
- “O Carlos Lacerda era governador da Guanabara e não
simpatizava com a Oposição portuguesa.
Só passou a ter simpatia há pouco tempo… Nesses dias, não tinha nenhuma.
Nenhuma, nenhuma… Ele ordenou um dispositivo da polícia no aeroporto para nos
recambiar no mesmo avião. Não aceitavam, disseram-nos, “comunistas” no Brasil.
Um pouco na linha da P.I.D.E... Os democratas ou os revolucionários que
combatessem o regime de Salazar eram comunistas, por definição. Mais simples…
Sete horas à espera no aeroporto com episódios
incríveis, como o de tentarem, à força meter o Camilo no avião. E ele quase de
cabeça par baixo, nos braços dos agentes, garantiu ao comandante: - “Se
entrarmos neste avião, escavacamos tudo”. E, valendo-se de uma lei da
aeronáutica civil, que autoriza os comandantes das aeronaves a não levar
passageiros contra vontade, o comandante aliou-se a nós dizendo aos policias da
D.O.P.S. (a P.I.D.E. brasileira): - “Não vão, porque não querem ir”.
- Mais uma vez o Embaixador Álvaro Lins teve uma acção
decisiva ao afirmar que, se o Ministério da Justiça não nos concedesse asilo
imediatamente, nos hospedaria em casa. Lá veio a ordem… Cerca de um mês em Belo
Horizonte, muitíssimos bem instalados num dos melhores hotéis, com a obrigação
de nos apresentarmos á Polícia todas as semanas”.
Amândio acabou por ir para o Rio de Janeiro em busca
de emprego e conseguiu. A mulher viajou para o Brasil em 31 de Janeiro, na
véspera do caso de Beja (“Se não tivesse ido antes, estou convencido de que a
prenderiam”). Progrediu no trabalho. Jaime Conde chegou da Holanda. O grupo
continuou unido”.
Um Homem do povo a fazer a revolução do povo
- O Palma retomou a sua posição de fornecedor de
poltronas ás companhias de aviação brasileiras. Em cada fornecimento recebia
muitos milhões de cruzeiros.
- “Isso ainda lhe confere maior valor. Tinha um nível
de vida espantoso. Desfrutava a noite como poucos. Apesar de tudo, com 40 anos
em 1966/67, abandonou dinheiro, conforto e prazeres para vir mais uma vez à
Europa recomeçar a luta.
Depois das lições de Sintra e Marrocos, convencera-se
de que não havia grandes chefes, que a iniciativa dos movimentos tinha de ser
tomada pelos pequenos chefes, chamemos-lhes assim, por aqueles que não tinham
ou não têm hoje (Palma continua a não ter) qualquer aspiração ao poder. Um
homem do povo fazendo a revolução do seu povo independentemente de vantagens
pessoais. Em minha opinião, embora continue a ser quixotesco, a ser utópico e
pouco pragmático, essa é a característica que diferencia os homens. É realmente
a diferença que existe entre um Palma Inácio e muitos outros. Ele mantém uma
coerência total, sabe o quer, sabe por que luta e sabe o que transmite, ao fim
destes anos todos. E não quis ser mais do que um revolucionário ao serviço de
seu povo. Só.
As desilusões e a descrença não venceram
No que respeita ao Amândio, a sua capacidade de
trabalho e a cultura que possuía depressa o guindaram a posição cimeira de uma
organização comercial. Fez uma experiência nova, a de um homem comum, desligado
da política, ganhando o seu salário, com a mulher e filhos (nasceram uma
rapariga e um rapaz) mas não era um homem feliz. Sentia-se logrado. “Aquilo”
não lhe bastava. Entendia que tinha parado e recriminava-se pensando nos
companheiros que tinham continuado uns presos, outros mortos em Beja.
Sem pretender desculpar-se:
- “…. Embora um recomeço imediato fosse manifesta
burrice, estávamos tão referenciados em Portugal e no Brasil que pouco
poderíamos fazer mas preocupava-me e apercebia-me da gravidade do problema de
Africa.”
Quando Palma Inácio e Camilo Mortágua decidiram voltar
à luta revolucionária, Amândio foi obrigado a uma opção dolorosa. Naturalmente
a família e o emprego eram razões de peso. Todavia, pior era a sua descrença. O
facto de ter saído do fogo, de ter abandonado a primeira linha do combate
dera-lhe tempo de pensar, de analisar:
- “Aqueles dois anos no Brasil (antes da revolução de
1964 que transformou o cenário político do país) foram de uma democracia viva,
plena de defeitos de estrutura, mas aberta ao diálogo, a um debate constante.
Adquiri a minha formação política no Brasil. Antes, não tivera tempo, era só
anti-salazarista. O que viria depois de Salazar cair, se mo perguntassem, não
saberia dizer. Não tinha tido tempo…
Para a minha descrença contribuíram as contradições
entre Humberto Delgado e Henrique Galvão, apesar das quais e dos muitos
desgostos, eu não parara, porque o barco tinha que andar. Continuara movido
pela angústia pela necessidade de fazer e também, reconheço-o, pela imaturidade
da política.”
Resolveu ficar no Brasil deprimido, atormentado por
não acompanhar Palma Inácio e Camilo Mortágua. Talvez, como um meio de evasão,
retomou o estudo de Direito e concluiu o curso com uma classificação muito
alta: - “Uma das minhas ambições era
regressar a Portugal como professor universitário brasileiro. Seria uma
autoafirmação, uma resposta ao que me acontecera no meu país.”
Especializou-se em Finanças e integrou-se num esquema
no qual só não era capitalista “no modo de tratar as pessoas”. Firmou-se brilhantemente em termos
profissionais “por raiva”, entende? Como compensação por não ter vindo”).
O 25 de Abril “apanhou-o” no Rio de Janeiro, em
vésperas de uma grande operação bancaria que iria dirigir. Sozinho, no quarto
do hotel, ouviu o discurso do General Spínola, as lágrimas a correrem pela
cara. O Amândio antigo veio à superfície…
Foi o frenesi do regresso. A bem ou a mal, com ameaças no Consulado para
obter imediatamente o passaporte. A mulher, investigadora na Universidade de Filosofia,
em vésperas de doutoramento, interrompeu o trabalho. Ele pode de novo
“respirar” Portugal, misturou-se com a multidão vendo e ouvindo
infatigavelmente. Treze anos no Brasil foram como se nunca tivessem existido,
como se, num golpe de magia, acabasse de sair de Caxias e, instantaneamente,
adquirisse a experiência acumuladas no decorrer dos anos. Com alegrias e
tristezas, com esperanças e desânimos, com a aventura e o trabalho. Com os
filhos já crescidos. Aceitando o remorso da ingratidão por quanto o Brasil lhe
proporcionara.
O dr. Amândio Conceição Silva está em Portugal,
definitivamente, com optimismo. Mas… -
Estamos no princípio de tudo. No nosso país há um problema muito mais grave do
que o problema político. Para que o caminho político seja mais democrático é
indispensável reformar a mentalidade dos portugueses.
1-03-1975
XV – “Dossier” PIDE: história e funcionamento
Fernando Oneto, chamado à realidade, retoma o seu
lugar.
- Como se
integrou no Movimento do 25 de Abril?
- Três ou quatro dias após
o meu regresso, comecei a trabalhar com o comandante do Forte de Caxias, o
capitão-tenente Abrantes Serra, no que viria a ser a Comissão de Extinção da
P.I.D.E./D.G.S. e da L.P. “Eram precisas pessoas qualificadas para esse
género de tarefa. O a-propósito de um tema que continua a ser escaldante”.
- Exatamente, o que era a P.I.D.E.?
- Muita gente fala da P.I.D.E. e poucos sabem o que
ela era.
Fernando Oneto recolhe-se por uns instantes. Depois:
- Há muitas maneiras de falar da P.I.D.E. Pode-se
falar em termos mais ou menos emotivos, ou mais ou menos políticos… A P.I.D.E. era uma organização odiosa e
odienta que servia para reprimir todas as veleidades de luta, em Portugal,
pelas liberdades fundamentais, isto toda a gente sabe, está no espírito de
todos. O que muito poucos sabem da terrível P.I.D.E. é o método, ou métodos,
que usava, como trabalhava”.
E prossegue:
- Há uns bons meses atrás, o comandante Conceição e
Silva deu em conferência de imprensa um retrato da P.I.D.E. muito semelhante ao
que vou traçar. Simplesmente, apenas vieram a lume algumas frases apanhadas no
ar, quando se reveste do maior interesse proporcionar ao publico o conhecimento
real e completo do que era a P.I.D.E...
De memória, sem consultar documentos, direi que a
P.I.D.E. começou por ser, entre os anos 27 e 30, um agrupamento de marginais,
sem qualquer base legal, chefiado pelo capitão Agostinho Lourenço.
Transformou-se em polícia política que, no decorrer do tempo, adoptou diversas
designações: a D.G.S. do 25 de Abril, P.I.D.E., P.V.D.E., Polícia Internacional
de Defesa do Estado, Polícia Especial, Polícia de Informação do Ministério do
Interior, nomes que que disfarçavam ou cobriam a luta contra os cidadãos que se
rebelavam contra uma forma opressiva do Poder. Evoluindo, teve altos e baixos,
mas era (segundo a expressão do comandante Conceição e Silva na conferência de
imprensa a que aludi), em 1974, um gigantesco escritório de recolha de
informações em proveito de um estado policial montado no sentido da opressão.
Em 1974, a D.G.S. consumia 90% das suas actividades no
território continental em ocupações de secretaria. Uma polícia extremamente
burocrática. Porquê? A D.G.S. reunia funções que, noutros países, não cabem à
mesma polícia. Simultaneamente, fazia informação, investigação e (recordo os
ataques terríveis, frontais e corajosos do dr. Salgado Zenha) a instrução dos
processos, no que de monstruoso pode haver em tudo isto. Dotada de meios
materiais ilimitados - absolutamente ilimitados - e favorecida por uma legislação
que lhe conferia a mais ampla liberdade de acção, a P.I.D.E. podia dispor de um
preso sem culpa formada durante seis meses. Não prestando contas a ninguém nem
admitindo a presença de advogados, não concedendo nenhuma espécie de protecção
legal ou não. Recordo, a propósito, que foi já no governo de Marcelo Caetano
que se fez a discriminação entre a P.I.D.E./D.G.S. e a Polícia Judiciária ao
serem estatuídos os Juízes de Investigação Criminal. Com efeito, a lei
determinava que o presumível delinquente, ao fim de 48 horas, fosse entregue a
um juiz de investigação criminal que dirigiria o processo com assistência do
advogado do preso. Este direito, concedido a criminosos, assassinos, ladrões,
apenas vagabundos, não se estendia aos presos políticos.
Espantosamente, a Assembleia - dita Nacional -
avalisou uma lei que conferia à Polícia Judiciária obrigações normais em
qualquer país da Europa no que respeita a presos de delito comum e deixou à
P.I.D.E. poderes para agir, como na época da Inquisição, contra cidadãos
acusados de delitos políticos que lhe caíssem nas mãos. Fico a pensar como é
que os homens que aprovaram essa lei conseguem dormir com a consciência
tranquila.
Se a P.I.D.E. tinha a seu favor uma legislação
ignominiosa, que envergonha os que a elaboraram, a aprovaram ou a suportaram
sem protesto, e verbas oficias ou secretas cujas contas deixarão os Portugueses
de boca aberta quando forem publicadas, por outro lado, ressentia-se da
circunstância de ter poucos - e maus - agentes. Efectivamente, a maior parte
dos quadros da P.I.D.E. era de má qualidade e aproveito o ensejo para prestar
homenagem a todos aqueles que, desempregados, preferiram dificuldades, a
miséria e a emigração a aceitarem convites para engrossar os contingentes da
Polícia.
Uma «firma» com três departamentos e sede na António
Maria Cardoso
Implacavelmente, mas sem paixão, Fernando Oneto
examina o «terror-P.I.D.E.».
- Já vimos quais eram os três departamentos principais
da «firma» instalada na António Maria Cardoso. Como funcionava cada um deles?
Comecemos pela investigação dirigida pelo senhor Passo, um imbecil, um tarado,
um criminoso de delito comum. Na Investigação (foi o meu caso, foi o de
milhares de pessoas) o preso era torturado enquanto qualquer Polícia investiga
e depois prende, a P.I.D.E. prendia e depois investigava. Muito mais fácil,
necessariamente.
Um individuo era preso e torturado. Ao fim de um certo
tempo, variável consoante a sua capacidade de resistência, indicava um nome;
identificada, a segunda pessoa entrava no mesmo sistema e, por seu turno, presa
e torturada, revelava um terceiro nome. Como a Polícia dispunha do tempo que
quisesse, conseguia resultados. Se se acrescentar que tudo era feito às
escondidas, sem que os advogados tivessem sequer conhecimento dos processos,
com visitas da família concedidas arbitrariamente (a Polícia permitia visitas a
seu bel-prazer, em plano adicional de tortura), não custa imaginar o desespero
e a angústia de uma pessoa que se sente tão desprotegida. Grosso modo era assim
a investigação da P.I.D.E.
Contudo, o sector mais importante da Polícia era a
informação onde, tem de se reconhecer, dispunha de meios com apreciável
eficiência. Esses meios (a ordem por que os refiro não tem qualquer
significado) dividiam-se pela escuta telefónica, pela violação de
correspondência, pela rede dos informadores e pelos seus próprios quadros. Para
se avaliar como a Polícia estava burocratizada, ainda no tempo do Zé Gonçalves…
- Não antecipemos.
- A escuta telefónica era um dos grandes mitos deste
País. Não havia ninguém que não dissesse que tinha o telefone em escuta. É
sabido: pessoas que passavam a vida a dar améns e a colaborar com o Governo
confidenciavam que também o seu telefone estava em escuta. Era até um processo
de se mostrarem contra o regime: - “Tenho o telefone em escuta”. Isso dava-me
uma grande vontade de rir. Não conhecia como agora a escuta telefónica da
P.I.D.E., mas tinha a certeza de que a Polícia não podia, de maneira nenhuma,
escutar um milésimo das pessoas que se diziam em escuta. Realmente não podia.
A escuta telefónica funcionava com um aparelho
francês, de boa marca, mas um tanto antiquado (foi adquirido em 1966) que
registava, no máximo, 55 ou 56 conversas em simultâneo. Em concreto, a P.I.D.E.
observava, habitualmente, 500 pessoas. Um número reduzido, sem dúvida.
Bastante, todavia, para a P.I.D.E. à qual só interessava ouvir gente que lhe
«desse» qualquer coisa. Dessas quinhentas pessoas, dez -vá lá-, quinze por
cento eram situacionistas (a P.I.D.E. escutava ministros, secretários de
Estado, deputados). Concluímos que mais de quatrocentos elementos da oposição
tinham o telefone controlado.
O sistema da escuta telefónica rendeu pouco.
Politicamente rendeu muito pouco à Polícia. Qual a razão?
Os responsáveis políticos (via de regra, sob escuta)
com certeza que não falavam ao telefone de assuntos importantes, que inclusive,
os incriminariam, a eles e a terceiros. Ainda rendia menos com os apaniguados
da situação, muito cautelosos. Muito mais do que os oposicionistas. O lucro da
P.I.D.E. com a escuta telefónica residia no conhecimento da vida íntima das
pessoas que, se não abordavam segredos políticos, ultrapassavam, noutros
aspectos, as fronteiras do que a prudência aconselhava. Nem aí, porém, a Polícia
alcançou resultados de monta. A escuta era uma arma de manejo perigoso. A
P.I.D.E. não podia -ou não queria- correr o risco de que alguém fosse tentado a
exercer, por sua conta, chantagem com o material obtido através da escuta
telefónica. Pouquíssimos funcionários (talvez uma escassa meia dúzia) tinha
acesso ao sector.
Existe aqui uma aparente contradição pois, ao montar
as escutas telefónicas, a intenção da P.I.D.E., para lá de uma eventual
informação política, seria delinear o perfil das pessoas escutadas. Nas capas
dos dossiers das escutas (sistema fielmente decalcado dos métodos do F.B.I.)
inseriam-se as mais insólitas rubricas, a par dos elementos de identificação.
Motivos para chantagem, para aterrorizar, para quebrar o ânimo dos presos:
dívidas, amantes, etc.
Entretanto, a Polícia, pelo que sei, nunca tirou grande partido desses elementos, mesmo durante os interrogatórios. Raramente o fez.
Uma testemunha esclarece as razões do seu depoimento
O dr. Amândio da Conceição Silva quis complementar as
revelações que fez sobre o passado e estabelecer um balanço da sua actividade
em temos de presente e de futuro, integrando-se na sociedade nova que os
Portugueses desejam construir.
Eis o que nos diz:
- “Passados todos estes anos, os factos narrados
ganham para mim um único significado: sentirmo-nos finalmente perante a
possibilidade de construir uma sociedade nova, que ofereça ao povo português,
principalmente aos nossos operários e camponeses, como que uma mais que
merecida recompensa pelo ultraje e sofrimento que sobre eles se abateu durante
o fascismo.
Para a conquista dessa sociedade sob uma perspectiva
socialista há que desenvolver linhas de força orientadas para uma progressiva
tomada de consciência nacional dando ao povo a oportunidade de entrar com força
pela porta aberta pelo M.F.A. no 25 de Abril, ocupando de vez a sua casa que é
Portugal.
As acções individuais ou de pequenos grupos, tantas
vezes erradas tacticamente, porque quase sempre mal vinculadas à luta de
classes, tornava inevitavelmente na fragmentação imposta pele sistema
repressivo. Começada a destruição desse sistema, temos agora de substituí-las
pela construção de estruturas revolucionárias desenvolvidas para além das
divergências partidárias. A revolução não se vai medir pela sua velocidade, mas
sim pela sua segurança. Cada conquista tem de vir na hora certa, nem antes nem
depois.
No contexto actual, uma sociedade efectivamente
socialista exige dos revolucionários muito mais força e muito mais
desprendimento, muito mais consciência e muito mais decisão que em todas as
outras situações passadas. Se frequentemente se diz que a tarefa nacional é de
todos os portugueses, a verdade é que muitíssimos continuam ainda vergados a
uma quase impossibilidade de participação, fruto da manutenção de diversos
tipos de repressão, principalmente económica. Esta certeza advém do meu
mergulho na sociedade capitalista brasileira, onde vivi todo um esquema
alienante que para ser destruído precisa de ser efectivamente enfrentado pelas
massas consciencializadas de sua legítima força.
A tomada de consciência dos grupos sociais, a
descoberta que podem ter de um poder efectivo, é essa mudança de mentalidade, a
passagem da participação passiva a uma participação activa, que cria o
verdadeiro caminho revolucionário.
Não sei se, perante o quadro português, vai ser
possível encontrar a chamada via original para o socialismo, só sinto que para
o atingirmos a luta vai ser muito dura. Há que evitar a fragmentação das forças
de esquerda, promovendo a todos os níveis a aglutinação dos sectores
progressistas, quer civis, quer militares, numa estratégia inequívoca de
construção da sociedade socialista.”
3-03-1975
XVI – Abrir a PIDE na “mesa
da anatomia”
A P.I.D.E. continua na «mesa de anatomia». Fernando
Oneto, bisturi em punho, disseca a segunda fonte de informação da polícia, a
violação de correspondência:
- Ah! Bom!... a violação de correspondência compensava
a P.I.D.E. com larguíssimos dividendos, porque, enquanto as pessoas eram
reservadas ao telefone, a escrever (estamos num país de romancistas…) abriam-se
desprevenidamente. Pela violação de correspondência, a P.I.D.E. teve acesso a
informação que lhe foi de grande utilidade. A ilustrá-lo, lembro o caso do
Palma Inácio, já anteriormente referido.
O estudo da correspondência absorvia uma percentagem
muito elevada de pessoal, e quanto mais a P.I.D.E. aperfeiçoava os serviços de
colheita de informação, mais diminuía a sua eficácia. À primeira vista, um
fenómeno estranho, mas explicável, se dissermos que o volume de informação
recebida diariamente «afogava» o grupo que classificava e interpretava os
elementos enviados. Em consequência, veio a descoordenação. Houve exemplos de
presos (passou-se comigo), com interrogatórios e torturas, em que a Polícia procurava
averiguar factos de que outros dos seus sectores tinham conhecimento. Não
dispunha de tempo nem de meios para trabalhar, em termos efectivos, a
informação recolhida. Acrescentemos que as guerras coloniais, em que a Polícia
se empenhou a fundo, agravou, decisivamente, o problema. Três mil homens, no
conjunto dos quadros do continente e do Ultramar, eram insuficientes para o que
se exigia. Por fim, os movimentos estudantis, com a rebelião que se generalizou
no país, deram o golpe final. A Polícia não tinhas mãos a medir…
Os informadores
Terceira fonte: os informadores.
Embora tema diário de comentários, de afirmações, de
dúvidas, de notícias, creio que o público ainda não está esclarecido.
A P.I.D.E. tinha fundamentalmente três tipos de
informadores.
Primeiro os que se introduziam nas associações
políticas, nos organismos sindicais, nas empresas, em todo o lado. A troco da
sua actividade, recebiam remunerações que iam de 300 escudos a dezenas de
contos mensais. A imagem do informador mais divulgada, indivíduos muitas vezes
neutralizados pelas desconfianças que suscitavam, mas que em determinadas
ocasiões, não deixavam de prestar à Polícia serviço valioso.
A seguir, os informadores objectivos, isto é, aqueles
que pelas suas funções, obrigatoriamente enviavam relatórios sobre pessoas,
factos ou acontecimentos. Comandantes da G.N.R. e da P.S.P. presidentes de
Câmaras, governadores civis, cônsules, embaixadores, em suma, todos estes
funcionários eram informadores «de ofício».
Por último, os informadores dos quadros da P.I.D.E.,
agentes que circulavam por diversos locais e conhecidos por «polícias de rua».
O grande mestre de «polícia de rua» foi um homem
chamado José Gonçalves. Segundo opinião de um amigo meu, que tem trabalhado
exaustivamente em Caxias, o José Gonçalves esteve entre os melhores «polícias
de rua» mundiais, para o que contribuiu o sistema de informações que ele montou
em moldes extremamente curiosos.
O informador de rua perdeu eficácia à medida que a
luta da Polícia se diversificava pelos sectores de agitação nacional. A
ubiquidade não é acessível aos homens… O José Gonçalves virara a sua brigada
para o Partido Comunista. Conhecia muito sobre os comunistas. Quando o combate
surgiu de outros sectores anti-fascistas, a celebérrima brigada de José
Gonçalves soçobrou, mas no período em que o duelo se restringiu, na prática à
P.I.D.E. e ao Partido Comunista, o José Gonçalves e os seus colaboradores
conquistaram vitórias de inapreciável mérito, na perspectiva da P.I.D.E...
Há um episodio de que o José Gonçalves foi um dos
protagonistas que merece ser descrito porque ajuda a definir a sua mentalidade:
viajando em Espanha, com o Rosa Casaco, sofreu um desastre de automóvel em que
ficou às portas da morte. O Barbieri Cardoso sabia que o José Gonçalves tinha
um ficheiro de informadores que nunca dera a ninguém. Correu a Espanha, muito
mais preocupado com o ficheiro do que com o condoído com a sorte do seu
subordinado. Assim que chegou à cabeceira do doente, implorou:
- “Zé Gonçalves, dá-me o teu ficheiro”.
O José Gonçalves (hoje com 70 anos e preso em Caxias),
um pé cá e outro lá, sem forças para falar, levantou um dedo a acenar que não…
Salvou-se, restabeleceu-se e ninguém pôs a vista no
ficheiro. Depois do 25 de Abril, perseguiram-se pistas, gastou-se um ror de
tempo, muita gente se dedicou à procura do ficheiro e ele nunca apareceu.
Agora está esclarecido. O ficheiro nunca apareceu
porque nunca existiu. O homem trabalhava de memória, tinha na cabeça os nomes
de todos os seus informadores. Reais, na quase totalidade, alguns inventados
por ele.
Em interrogatório feito em Caxias, indagaram ao José
Gonçalves da identidade de um informador, cujo pseudónimo se ligava a
pormenores fundamentais para o esclarecimento da P.I.D.E. Com uma expressão
meio matreira, meio vexada, confessou:
- “Vs. Exas estão a falar com esse informador. Sou eu.
- “Como é isso de ser você o informador?”
- “Inventei-o para receber o dinheiro…”
Não era só o José Gonçalves que inventava
informadores. Ao mais alto escalão da Polícia usava-se igual expediente. Um certo
informador da Zâmbia custava à P.I.D.E. cinquenta contos por mês. Pessoalmente
duvido que alguma vez tenha existido.
Ainda no capítulo dos informadores, há, digamos, um
sub-grupo, que pela sua importância, merece citação à parte. Falo das relações
entre as empresas privadas e a P.I.D.E.. Ocupei-me, pessoalmente das primeiras
diligências que se fizeram sobre o assunto e cujos frutos começaram a vir à
superfície.
As empresas privadas, as maiores, tinham avenças pelas
quais a P.I.D.E. se comprometia a informar acerca das simpatias - ou
actividades - políticas dos trabalhadores para efeitos de admissão e de
promoção, em especial quando se tratava de lugares de chefia. Colaboração que
se efectuava nos dois sentidos, em interligação íntima, com o objectivo de
delinear o que eles chamavam as actividades subversivas dentro da empresa:
movimentos reivindicativos, hipóteses de greves, suspeita de filiação
partidária, eram, além de outros, motivos de troca de informações, melhor, de
avisos.
A aliança da Polícia com a empresa ilustra
exemplarmente os métodos que a situação totalitária portuguesa usou na luta
desesperada de um capitalismo obsoleto contra as justas reclamações dos
direitos do trabalho. De resto, só assim foi possível manter, ainda que da
maneira que é do conhecimento geral, a ficção do corporativismo.
A dualidade P.I.D.E. empresa, cuja investigação não
está concluída, trará ao País grandes surpresas com a revelação de nomes nela
implicados. Era, de facto, uma das forças mais sinistras da repressão em
Portugal.
Um apelo
Uma advertência e um apelo: - “o que disse sobre os
informadores nem de longe esgota o assunto. Todavia, será preciso avisar o
público contra um procedimento que sobrecarrega, inutilmente, o funcionamento
da Comissão de Extinção da P.I.D.E.-D.G.S.
Todas as pessoas querem saber (o que é natural e
legítimo) se, na sua companhia, na sua empresa, na sua repartição, no seu
clube, até no seu partido político, existem ex-informadores da P.I.D.E... Então
resolvem fazer, dentro do esquema tradicional português (a lei da facilidade),
relações de pessoal, que enviam para Caxias, perguntando quais são os
ex-informadores. Se pensarmos que há empresas com milhares de empregados,
calcula-se o esforço e o tempo despendidos para responder.
O sistema é obviamente incorrecto, mas continua a ser
usado, para não mencionar telefonemas e visitas em que se pede: “Vejam se
fulano foi informador”, como se bastasse carregar no botão de um computador e
saísse a resposta!
Toda a gente deve saber que o ficheiro principal dos
informadores foi destruído pela P.I.D.E., quando as forças da Marinha
assaltaram as instalações da António Maria Cardoso.
Também é de acentuar que a tarefa de identificação dos
informadores tem sido levada a cabo por um número reduzidíssimo de pessoas.
Muitos – todos - querem a P.I.D.E. extinta e os informadores identificados, mas
quase ninguém se dispõe a ir trabalhar para Caxias. A identificação resulta de
um labor penoso que implica a leitura e o estudo comparado de relatórios,
sempre assinados com pseudónimos, e dos interrogatórios quer dos agentes, quer
de indivíduos fora dos quadros da Polícia. O informador com o pseudónimo A é o
senhor B de uma firma qualquer. Morosas e difíceis que sejam, as investigações
já conduziram a êxitos substanciais. Centenas de informadores estão
identificados.
Não é demais insistir no pedido que tem sido feito
repetidas vezes; o caminho da facilidade, remetendo extensas listas para
Caxias, é prejudicial. A atitude correcta - e a correcção envolve
responsabilidade - será informar: “Desconfiamos dos senhores A, B ou C,
porque…”
Com esses elementos, seguindo esse critério,
poder-se-á acelerar o «levantamento» da rede dos informadores da P.I.D.E...
Sei que é desagradável sugerir-se que alguém foi
informador da Polícia. No entanto, dado o caracter rigorosamente secreto das
investigações, e as suspeitas não se confirmarem, as consequências são nulas.
4-03-1975
- XVII – A extinção da
P.I.D.E.
Fernando Oneto findara a descrição da P.I.D.E. Do
passado viajou para o presente - que ainda o é - o 25 de Abril:
- Vale a pena recordar que o programa do M.F.A. apenas
consignava a extinção e não o desmantelamento da polícia política. Tanto assim
que o movimento de Abril não considerou a sede da P.I.D.E. em termos de
planeamento como objectivo militar. Foi a população concentrada nas ruas que
exigiu o ataque imediato às instalações da António Maria Cardoso assim como a
libertação de todos os presos políticos em Caxias e Peniche. Na verdade, de
princípio, a ordem era apenas para libertar alguns e não todos os detidos. Se dúvidas
houvesse de que foi essa a realidade, bastaria referir que chegou a vir nos
jornais a notícia da nomeação de um novo director-geral de Segurança, o então
inspector superior Coelho Dias, actualmente em fuga. E como foi a multidão que
impediu a fuga desse funcionário, a ela também se deveu, quer em Lisboa, quer
no Porto e em Coimbra e em Peniche que, de uma transição pacifica da P.I.D.E,
se passasse ao desmantelamento.
Como se compreende, das hesitações próprias dos
momentos que se seguiram resultaram casos, como no Porto, em que pides já
presos foram soltos. Rosa Casaco, que viria a exilar-se em Espanha, é um
exemplo. Entretanto, a grande maioria dos elementos da polícia foram
recuperados porque se lhes tornou materialmente impossível viver na
clandestinidade atendendo à perseguição, para não se dizer «caça» que lhes foi
movida pele generalidade da população. Pode, portanto, afirmar-se que a
Comissão de Extinção da P.I.D.E. e L.P. nasceu na rua.
O desmantelamento – repito - exigido pelo povo dá
lugar a que o destacamento da Marinha encarregado de ocupar a sede da P.I.D.E.,
venha a transformar-se no que seria, mais tarde, a «Comissão».
Às oito e meia da manhã do dia 26 de Abril, uma força
de fuzileiros, sob as ordens do comandante Costa Correia, entrou no célebre
edifício da António Maria Cardoso. Durante uma noite de cerco, aguardou-se a
rendição dos pides, a fim de evitar um assalto que seria, inevitavelmente, um
massacre. Aquele oficial, acompanhado do comandante Conceição e Silva e pelo
major Campos Andrada, dirigiu-se ao gabinete do major Silva Pais, que
aguardava, rodeado pelo seu «estado major». Na sala ao lado, a dos mapas, agrupavam-se
algumas centenas de agentes.
Cumprimentos polidos, formais. Minutos de tensão. A
força ocupante aguardava instruções da Pontinha, onde fora estabelecido o
quartel-general da Revolução.
Silva Pais iniciou as «hostilidades»:
- “Meus senhores, são oito e meia. Temos que resolver
o problema rapidamente, porque isto é uma repartição publica e às nove horas
tem de começar a funcionar”. E acrescentou:
- “Nunca nos passou pela cabeça irmos contra as Forças
Armadas. È um disparate pensá-lo. O assunto tem que ser esclarecido”.
Repisando:
- “Depressa, para a repartição abrir à hora habitual”.
Um dos oficiais observou-lhe friamente:
- “Nesta sala há uma coisa que já não está de acordo
com a situação actual”.
Silva Pais:
- “O quê?
- “Os retratos do ex-Presidente da República e do
Presidente do Conselho. Faça favor de os mandar retirar”.
- “Com certeza. Sr… vá tirar os retratos!”.
As duas fotografias foram para o chão. E Silva Pais,
irónico, apontando outro retrato, o do Salazar:
- “E quanto aquele? Também acha que deve ser
retirado?”
- “Sem dúvida que também deve ser retirado”.
- “Mas repare, aquele está muito mais alto e muito
mais firme. Vão ter muita dificuldade em o retirar…”
Instantaneamente, o troco:
- “Ah sim? Então vá buscar um escadote e retiro-o”.
A fotografia de Salazar juntou-se no chão às outras
duas.
A destruição de documentos
Um instante para coordenar ideias. Fernando Oneto
prossegue:
- O comandante Costa e Castro ficou, desde logo,
ligado ao processo de desmantelamento da P.I.D.E. tal como o comandante
Abrantes Serra em Caxias e o major Vargas na Cova da Moura.
Quando a Junta de Salvação Nacional se transferiu da
Pontinha para a Cova da Moura, um dos seus componentes, o almirante Rosa
Coutinho, foi nomeado para dirigir superiormente os serviços de desmantelamento
e agregou a si os oficiais que tinham efectuado a ocupação, além de outros. O
comandante Conceição e Silva veio também a ser chamado, mais tarde, na sua
qualidade de jurista.
A imensidade da tarefa que se lhes deparou não
permitia improvisações. Era necessário um esquema de trabalho e especialistas
em diferentes campos de actividade. A equipa aumentou por isso. De facto,
muitíssimo havia a fazer, desde o destino a dar ao grande número de detidos até
à papelada, às fogueiras que os pides atearam. A propósito, é de mencionar que,
na António Maria Cardoso, os pides queimaram documentos e fizeram funcionar as
máquinas de triturar papel até elas se estragarem. O gabinete do inspector
tinha papel triturado quase até ao tecto…
Especialmente, o que foi destruído? Coisas pessoais,
coisas que estavam à mão, coisas que talvez os pudessem incriminar directamente
e tudo aquilo de que, no meio da confusão que se imagina, mais depressa se terão
lembrado, principalmente a chave dos pseudónimos dos informadores.
Cabe esclarecer que, de uma forma geral, os
informadores actuavam sob pseudónimo e que havia como que um código para os
identificar. Essa chave foi destruída antes da ocupação da sede da P.I.D.E.
Todavia, os pseudónimos só eram utilizados quando os informadores entravam numa
fase de prestação efectiva de serviços. Enquanto em regime de experiência, por
vezes mantinham as verdadeiras identidades. E evidente que a destruição dos
ficheiros dos informadores tornou extremamente difícil e morosa a investigação
das identidades de milhares de indivíduos que colaboraram com a polícia. Mas
muitos dos relatórios dos informadores ficaram intactos. Pela sua análise e
pelo interrogatório das pessoas neles visados, pode conseguir-se um quadro
bastante elucidativo.
Explicando melhor o que aconteceu nas horas que
antecederam a ocupação da sede da P.I.D.E. na noite de 26, cercados, os pides
não estavam em condições de discernir (nem de se lembrar) quais os documentos
fundamentais que lhes convinha fazer desaparecer. Era impossível, materialmente
impossível…havia toneladas de papel distribuídas pelos serviços.
Por outro lado, os arquivos da P.I.D.E., incluíam toda
uma duplicação de elementos, e, frequentemente, foi destruído o dossier A mas
não foi destruído o dossier B que tratava do mesmo assunto ou que a ele aludia.
Em consequência, foi possível chegar-se ao A por uma cuidadosa análise do B,
auxiliada por outros elementos que se averiguaram.
Coleccionadores de «recordações»
Dois parêntesis que Fernando Oneto aproveita para
clarificar os momentos vividos nos dias que se seguiram à vitoria do 25 de
Abril:
- A P.I.D.E. concentrava nas suas mãos o Bureau
Internacional da Interpol e os serviços de passaportes, de fronteiras e de
estrangeiros. Dois ou três dias após o Movimento, as fronteiras ficaram
reabertas e, praticamente, ninguém sofreu demoras ou quaisquer inconvenientes
com o encerramento da P.I.D.E. Outas entidades se encarregaram desses sectores
e devo salientar a grande complexidade dessa operação de transferência de
actividades.
Segundo parêntesis:
- Antes de fechar a porta à chave, verificou-se a
irrefreável curiosidade de saber o que estava lá dentro. A P.I.D.E. era uma
surpresa para todos, pelo menos, uma espantosa incógnita.
Apenas mais tarde, na fase do desmantelamento se
começa a pensar na prevenção de possíveis fugas de documentos e em não deixar
confundir pistas com o simples acto de desarrumar um armário, por exemplo.
De princípio, na fase de abertura, os «coleccionadores
de recordações» aproveitaram a oportunidade; «crachats», fotografias, um
gravador, ou uma arma… documentos - muito poucos - ao contrário do que sucedeu
depois porque ninguém sabia onde procurar. Ninguém conhecia os arquivos de
molde a ir ao ponto X buscar o papel importante.
Encerrados os dois parêntesis:
- O comandante Conceição e Silva, quando foi chamado
pelo almirante Rosa Coutinho, encontrou já um embrião da Comissão de Extinção
que se dividia em dois ramos: o que lhe dizia mais directamente respeito que
era a elaboração de processos para julgamento e punição dos indivíduos culpados
e o que tratava da análise de documentos em arquivo.
Quanto ao primeiro ramo, existiam dois mil indivíduos
com graus de responsabilidade variáveis segundo as suas funções e outros
factores e impunha-se averiguar os malefícios que a P.I.D.E. fizera ao país e
tomar as medidas profiláticas necessárias não só para evitar que a organização
pudesse continuar, como também para impedir que uma nova nascesse das cinzas da
primeira.
Temos três etapas: ocupar, tomar conta e arrumar.
Depois, começar a conhecer. O começar a conhecer teve duas vias; através do
interrogatório dos presos e do acesso aos arquivos, isto é, na prática, as duas
grandes secções da Comissão de Extinção: a investigação e a análise documental.
Essas actividades exerciam-se mais em Caxias do que na António Maria Cardoso
porque para lá tinha sido levado parte dos arquivos, por questões de segurança
e também porque em Caxias estavam detidos os principais responsáveis da
organização.
Na Cova da Moura ficaram os ficheiros dos agentes da
P.I.D.E. Ali, se forneceram documentos libatórios a cidadãos que pediam
certificados de que não eram agentes da P.I.D.E.
Um aparte: E o tempo dos anúncios nos jornais “Eu não
sou pide” … “Eu não sou informador” …
Na grande maioria eram mesmo informadores. A grande
confusão que reinava na Cova da Moura permitiu que se passassem documentos
desse teor com o desconhecimento total da realidade. Os informadores iam buscar
uma certidão autenticada em como não eram agentes da P.I.D.E. De facto, eram!
De Junho: A Comissão é institucionalizada
Fernando Oneto explica:
- Quando, pelo estudo de um relatório de um
informador, não se podia detectar a sua identidade, interrogava-se o agente que
rubricava o documento. Em larga percentagem, o sistema foi positivo.
Iniciar-se o desmantelamento da P.I.D.E. pelos
informadores teve uma razão que era a circunstância de os agentes estarem
presos na esmagadora maioria e os informadores, salvo poucas exceções,
manterem-se à solta. Eles constituíam fonte de preocupação pela sua
perigosidade potencial… Com tempo e perseverança, pôde-se identificar um largo
número de informadores principais.
Convém não perder de vista que alguns civis vieram dar
uma colaboração preciosa aos militares afectos ao processo que se esboçava.
Todos os ex-presos políticos tinham um conhecimento muito mais profundo e
exacto do que era a P.I.D.E. do que os militares, desviados por anos de guerra
em Africa. Não será exagero afirmar que, sem os civis, não se prosseguiria na
tarefa da Comissão de Extinção em condições de eficiência.
Em Junho, um despacho do chefe do Estado Maior General
das Forças Armadas criou a Comissão de Extinção da P.I.D.E. e L.P.
institucionalizava-se um organismo com mera existência de facto, no qual muitos
colaboravam, embora desordenadamente. Tentava-se moldar num todo orgânico,
objectivo que, por motivos de varia ordem, deve confessar-se que ainda não foi
alcançado.
O almirante Rosa Coutinho assumiu a presidência da
Comissão e, como disse, o comandante Conceição e Silva foi convidado a
prestar-lhe assistência jurídica, tendo-se tornado mais tarde o presidente
executivo.
7-03-1975
XVIII – A Comissão de Extinção e o 28 de Setembro
O embrião da chamada Comissão de Extinção da
P.I.D.E./L.P. (pouca gente sabe o seu nome oficial; Serviço de Coordenação da
Extinção da P.I.D.E./D.G.S. e Legião Portuguesa), ganha raízes. Os que lá
trabalham - militares e civis - procuram desbravar o caminho que têm pela
frente. É desse primeiro período, que vai até ao 28 de Setembro, que Fernando
Oneto fala:
- Entregues os detidos ao foro militar, começaram a
elaborar-se os processos, a levantar autos e a realizar todas as demais
diligências impostas pela lei. É importante que toda a gente saiba que se
cumpriram, rigorosamente, as normas do Código da Justiça Militar e os pides
foram sempre interrogados com toda a correcção. Nunca vi nenhum deles ser
insultado, o que espantava alguns oficiais que perguntavam: - “Como é possível
que vocês, que foram torturados por estes (…) os tratem desta maneira?”.
O comandante Conceição e Silva chamou para colaborar
consigo oficiais L.D. (licenciados em Direito) ou, pelo menos, familiarizados
com problemas jurídicos. Uma equipa de algumas dezenas de especialistas
trabalhou duramente para esclarecer as actividades da polícia política. Na
António Maria Cardoso funcionava como um tribunal criminal que centralizava e
coordenava a instrução processual feita em Caxias.
Entretanto, faltava definir a lei substantiva
incriminatória - que não existia e que continua a não existir. A lei do antigo
regime, evidentemente, não classifica de criminosos os actos praticados pelos
pides. E seria ridículo incriminar um torturador em termos de ofensas
corporais, como ridículo seria incriminar um informador por cumplicidade ou
autoria moral de um delito cometido por um agente.
Estava, portanto, montado o aparelho que possibilitava
o andamento processual até uma dada fase. E assim foram abertos processos a
muitos detidos de modo a poderem ser julgados ou pela lei existente ou por
outra que, a todo o momento, se esperava promulgada. Esta última hipótese, no
entanto, suscitou problemas de varia ordem, por exemplo, o da rectroactividade
da lei penal… Problemas, aliás, discutidos por uma comissão consultiva de
advogados, que deveria colaborar estreitamente com a Junta de Salvação Nacional.
Cerca de cinquenta juristas se debruçaram sobre o assunto, mas antes que
chegassem a qualquer conclusão, foram-se «evaporando» um a um… De qualquer
modo, tentou-se organizar os processos para os remeter a tribunal.
Enquanto não se define a lei, toca a andar para a
frente, com aquilo que se pode, quer em instrução processual, quer no
desmantelamento”, foi o lema dos bem-intencionados que trabalhavam na Comissão.
Para estes, a questão punha-se em termos executivos: “dêem-nos a lei, que nós
cumpriremos”. Só que, obviamente, não era a eles que competia legislar.
Consequentemente, as regras para a instrução dos processos prescritas no Código
de Justiça Militar foram rigorosamente respeitadas. Total e formalmente, inclusive,
com advogados a assistir aos interrogatórios, sempre que previamente
constituídos pelos arguidos. Quantas vezes os pides presos se recusaram a
prestar declarações sobre este ou aquele ponto, normalmente sobre factores ou
circunstâncias que os incriminavam a eles e a terceiros? Recusaram-se… e
pronto! Nenhuma coacção era exercida, no mais estrito cumprimento do que a lei
prescreve. Muito boa gente desta terra criticava asperamente o tratamento dado
aos detidos, acusando-os de «andarem com os pides ao colo» esquecendo-se,
talvez, do abismo moral que separava interrogadores e interrogados para não
referir já outras diferenças que me parecem evidentes”.
Um barómetro político
Fernando Oneto prossegue:
- A Comissão de Extinção é o melhor barómetro das
flutuações políticas deste Portugal que se pretende renovar e o seu trabalho
reflete, a cada momento, a maior ou menor descompressão no ambiente político
nacional. Nacional e não só…
O caso da Legião Portuguesa é um bom exemplo do que
acabo de afirmar. Legionários que, durante anos e anos ocuparam postos-chaves
na organização foram presos e soltos já por duas vezes e estou a lembrar-me de
um que já o foi por três vezes.
Quem se lembra ainda de um tal Partido Nacionalista
Português, que surgiu no Porto, por acaso, totalmente constituídos por
legionários? Por acaso, a organização interna deste partido era praticamente
igual à da Legião. Por acaso, o seu chefe era um legionário que, em 1958,
requereu a sua admissão na P.I.D.E. e por acaso este cavalheiro anda por aí à
solta outra vez…
Com a P.I.D.E. aconteceu o mesmo. Quando a
investigação aflorava as informativas e repressivas da Polícia ao mais alto
nível, quando tocava, por exemplo, nas relações sinistras das empresas privadas
e dos serviços públicos com a P.I.D.E. (só em 1973 foram feitos à P.I.D.E.,
pelos diversos serviços públicos, mais de trinta mil pedidos de informação dos
quais cerca de 23 mil pelo Ministério da Defesa) a Comissão era obrigada a
actuar conforme os ventos que sopravam do alto. Acontecia que, em casos análogos,
a luz podia vir verde, amarela ou encarnada, consoante os tais ventos. Tinha
dias…
Toda a gente estará de acordo que a verdadeira
extinção da P.I.D.E./L.P. implica o desmantelamento de uma ponta a outra das
suas organizações e respectivas ramificações, com especial incidência nos seus
pontos-chave. Batendo alto, portanto”.
Fernando Oneto chama agora a atenção para um aspecto
de vital importância:
- Os arquivos da P.I.D.E. e das outras organizações
fascistas constituem material valiosíssimo e que, no meu entender, fazem parte
do património de todos os portugueses. A sua eventual utilização partidária,
isto é, a possibilidade de um partido ou facção dele se aproveitar contra outro
partido ou facção, mais do que a violação das regras do jogo democrático, é um
crime.
Com efeito, esses arquivos estão, em noventa por cento
pelo menos, dirigidos, naturalmente, contra os lutadores anti-fascistas deste
país. A serem reactivados em termos policiais, quais seriam as grandes vítimas?
A Nação antes de mais. Por isso, insisti na importância que teve, na altura, o
povo nas ruas para a extinção da P.I.D.E.
Esteve iminente um confronto militar?
Logicamente surgia uma pergunta:
- Qual a razão por que se
refere apenas ao período que vai até ao 28 de Setembro?
Fernando Oneto não se fez rogado:
- Porque os acontecimentos do 28 de Setembro, ao
definirem um marco na evolução política nacional, trouxeram consequências
profundas para as condições de funcionamento da Comissão de Extinção (o tal
barómetro sensível…), a ponto de se poder dizer que houve duas Comissões de
Extinção: uma até ao 28 de Setembro e outra depois dessa data.
- Quer explicar?
- Vivi intensamente os acontecimentos do 28 de
Setembro, melhor dizendo, os dois ou três 28 de Setembro que, na realidade,
existiram e foram coincidentes. Como interveniente, não me sinto autorizado a
falar sobre esses factos enquanto não for publicado o relatório oficial sobre o
assunto. A propósito: quando vem a publico esse relatório, tantas vezes
anunciado e que o Pais político espera com tão grande impaciência? Mais de
cinco meses passados, o relatório a continuar as suas deambulações de instância
para instância arrisca-se a ser, tão somente, um documento de mero valor
histórico e não um relato de acontecimentos de flagrante actualidade e que
decisivamente influíram no quadro político português.
De qualquer maneira não hesito em acrescentar a minha
interpretação política: foi o desfecho de uma luta travada entre o poder
crescente da Comissão Coordenadora do M.F.A. e o autoritarismo do senhor
general Spínola, com as consequências que estão à vista de todos. De facto,
foram horas vividas angustiosamente pela equipa que na António Maria Cardoso
assegurava a informação entre o que acontecia no Pais e os centros de decisão.
Talvez poucos saibam que esteve iminente um confronto entre forças militares
que apoiavam os dois lados. A escuta-radio, montada na António Maria Cardoso,
cerca das quatro da manhã, detectou uma mensagem em que alguns elementos
tratavam de inimigo outos saídos a reforçar a barragem popular de Sacavém…
Fernando Oneto, “regressando” à Comissão de Extinção,
diz:
- A partir do 28 de Setembro, o ambiente na Comissão
de Extinção, à semelhança do que sucedeu noutros sectores da vida nacional,
degradou-se a ponto de, recentemente, dois elementos dessa Comissão terem
requerido ao chefe do Estado Maior das Forças Armadas uma sindicância sobre as
gravíssimas anomalias que ali têm vindo a ocorrer.
A seguir: XIX – O caso Delgado
Infelizmente, os recortes das dezoito entrevistas, que
o meu Pai guardou, recolhidas por Martinho Simões, acabam aqui. Não sei se
houve mais além da XVIII.
***
Passei horas no site da Hemeroteca Digital à procura
destas entrevistas e não encontrei a XIX. Contactado, Fernando Fernandes, da
Hemeroteca digital disse
que não existe mais nenhuma.
Terá
o Diário de Notícias censurado “O caso Delgado”?
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